
Vasco Magalhães, Director Geral da Melom e Querido Mudei a Casa Obras (QMACO)
A reabilitação deixou de ser uma opção e passou a ser uma necessidade
A facturação próxima dos 31 milhões de euros em 2025 confirmou um ano de crescimento para a Melom e a Querido Mudei a Casa Obras (QMACO). Em entrevista ao Diário Imobiliário, o director-geral das duas marcas, Vasco Magalhães, defende que o sector da reabilitação continua a beneficiar da dificuldade de acesso à habitação, mas alerta para os desafios estruturais da construção em Portugal, nomeadamente a falta de mão-de-obra qualificada e a necessidade de maior profissionalização.
Em 2025, a rede assinou 31 novas unidades — o melhor registo desde 2022 — e alcançou uma facturação global próxima dos 31 milhões de euros, mais 4,5% do que no ano anterior. Já a QMACO registou o melhor desempenho da sua história, com receitas de 10,3 milhões de euros e um crescimento de 39,6%.
A facturação próxima dos 31 milhões de euros em 2025 reflecte que tipo de crescimento da Melom e da Querido Mudei a Casa Obras?
Reflecte um crescimento sustentado e mais exigente. Não estamos apenas a crescer em volume, estamos a crescer em qualidade, em consistência e em controlo da operação. É esse o crescimento que nos interessa, o que se mantém mesmo quando o mercado abranda.
Quais foram os principais motores deste crescimento no último ano?
Houve três factores muito claros. Primeiro, o reforço da marca, que continua a gerar confiança num momento em que o cliente está mais exigente. Segundo, a maior profissionalização da rede, com franqueados mais estruturados e focados na execução. E terceiro, um trabalho interno de maior disciplina operacional, que nos permitiu acompanhar melhor os projectos e garantir melhor taxa de conversão.
Que metas definem para 2026?
2026 será um ano de consolidação. Queremos crescer, naturalmente, mas com foco na qualidade da rede e na sustentabilidade do modelo. Isso passa por reforçar a presença em várias zonas do país, melhorar a eficiência comercial e garantir maior previsibilidade na geração de negócio. O crescimento será uma consequência disso.
Como caracteriza o momento actual do mercado de obras e reabilitação em Portugal?
É um mercado com procura forte, mas também com muitas fragilidades. Existe trabalho, existe necessidade, mas continua a haver muita informalidade e pouca capacidade de resposta estruturada. Isso cria uma oportunidade para quem consegue oferecer confiança, transparência e organização.
A procura por reabilitação continua a crescer face à dificuldade de acesso à compra de habitação?
Claramente. Muitas famílias que não conseguem comprar casa acabam por investir na melhoria da casa que já têm. A reabilitação deixou de ser apenas uma opção e passou a ser, em muitos casos, a única alternativa viável.
Que tipo de clientes mais têm recorrido aos vossos serviços?
Temos dois perfis muito claros. Por um lado, famílias que querem melhorar a sua habitação e procuram uma solução chave na mão com confiança. Por outro, investidores que procuram reabilitar para colocar no mercado, seja para arrendamento ou venda. Este segundo perfil tem ganho peso.
De que forma a crise da habitação está a impactar o vosso negócio?
Tem um impacto directo. A dificuldade de acesso à habitação está a deslocar investimento para a reabilitação. Mas também aumenta a exigência dos clientes, que são mais cautelosos, com maior preocupação no controlo de custos e prazos. Isso obriga-nos a ser mais rigorosos.
A reabilitação pode ser uma solução real para aumentar a oferta habitacional?
Pode ser parte da solução, mas não é suficiente por si só. Portugal tem um parque habitacional envelhecido e há claramente margem para reabilitar. Mas é preciso também simplificar processos, reduzir burocracia e criar condições para que essa reabilitação aconteça em escala.
O aumento dos custos de construção continua a ser um entrave?
Continua a ser um desafio, embora mais estabilizado do que nos últimos anos. O problema hoje já não é tanto a volatilidade, mas sim o nível de preços, que se mantém elevado e pressiona os orçamentos.
A escassez de mão-de-obra continua a ser um problema crítico?
Sem dúvida. É provavelmente o maior desafio estrutural do sector. Temos vindo a trabalhar activamente para mitigar este tema, nomeadamente através do estabelecimento de protocolos e parcerias com entidades formadoras certificadas, como o ISQ, procurando contribuir para a qualificação de novos profissionais e para a valorização das competências no sector. Ainda assim, é um desafio que exige uma resposta mais ampla e estrutural.
Como tem evoluído o preço dos materiais e que impacto tem nos projectos?
Os preços estabilizaram, mas num patamar alto. Isso obriga a um maior rigor na fase de orçamentação e gestão de obra. O erro hoje paga-se caro.
Que mudanças estruturais seriam necessárias no setor da construção?
Mais profissionalização, mais transparência e mais escala. O sector ainda é muito fragmentado. Precisamos de empresas mais organizadas, processos mais claros e maior confiança por parte do cliente. Sem isso, será difícil evoluir de forma consistente.
Existem planos de expansão geográfica ou internacionalização?
O foco está claramente em Portugal, onde ainda temos muito espaço para crescer. Estamos atentos a várias zonas do país onde identificamos potencial de desenvolvimento da rede. A internacionalização é um tema que poderá surgir no futuro, mas não é prioridade no curto prazo.
Que papel tem a tecnologia e a digitalização no vosso modelo de negócio?
Cada vez mais central. Desde a captação de clientes até à gestão da obra, a tecnologia permite-nos ganhar eficiência e controlo. Estamos também a trabalhar em soluções que nos permitam acompanhar melhor o cliente ao longo de todo o processo, com maior proximidade e capacidade de resposta.
Estão a apostar em soluções mais sustentáveis ou industrializadas?
Sim, mas de forma pragmática. A sustentabilidade tem de fazer sentido económico para o cliente. Há uma maior procura por soluções mais eficientes, seja ao nível energético ou de materiais, mas ainda estamos numa fase de transição.
Que expectativas têm para o mercado em 2026?
Esperamos um mercado estável, com procura consistente, mas mais exigente. O crescimento deverá continuar, mas com maior selectividade por parte dos clientes.
O sector das obras vai continuar a crescer ou prevê um abrandamento?
Acreditamos que vai continuar a crescer, mas a um ritmo mais moderado. O ciclo de crescimento forte tende a estabilizar, mas a necessidade estrutural de reabilitação mantém-se.
Onde vê a Melom e a QMACO nos próximos cinco anos?
Vejo a Melom e a Querido Mudei a Casa Obras a consolidar a liderança do sector em Portugal. Fomos pioneiros no modelo de franchising nesta área, temos hoje a maior rede a nível nacional e queremos continuar a liderar com uma proposta cada vez mais profissional, mais estruturada e mais exigente. O nosso foco é simples: ser a referência do mercado, tanto para clientes como para quem quer construir negócio connosco.















