
Paulo Merlini, Founder e Managing Partner da PMA - Paulo Merlini Architects
O Arquiteto Egoísta
Em 1976, no seu livro O Gene Egoísta, Richard Dawkins apresenta o conceito de “meme”: a unidade mínima de transmissão cultural — Ideias que se replicam e moldam o pensamento coletivo. O ponto crítico é simples e perigoso: o meme não sobrevive por ser verdadeiro ou eficaz, mas por ser replicável.
Isto deveria inquietar-nos. Porque grande parte do que fazemos assenta precisamente nisso: ideias herdadas, raramente questionadas, que repetimos sob a confortável capa do “sempre se fez assim”. E o “sempre se fez assim” não é argumento. É ausência de pensamento. É inércia.
Num setor que vive uma crise evidente, o discurso crítico foca-se nas variáveis óbvias: oferta e procura, industrialização, burocracia. Tudo relevante. Mas há um silêncio estranho em torno de um problema estrutural: a forma como os arquitetos projetam.
Projetar não é um gesto. É a resolução de milhares de problemas provenientes das mais diversas áreas do saber. Um projeto é a síntese desse confronto. É construção coletiva, inteligência integrada, não expressão isolada. A qualidade da resposta depende da diversidade e profundidade das variáveis integradas na pergunta. Pensar bem antes de responder não é excesso de zelo. É condição mínima para acertar. Mas insistimos em inverter o processo. Em vez de compreender, desenhamos. Em vez de estruturar o problema, fixamos uma forma. O arquiteto compromete-se com uma solução e só depois chama os restantes técnicos — não para pensar, mas para adaptar.
O resultado é previsível. A realidade entra em choque com a ideia. As exigências técnicas, económicas e construtivas desmontam o projeto. A “visão” transforma-se numa sequência de concessões. Ajustes. Remendos. O projeto degrada-se à medida que tenta sobreviver.
E depois há surpresa quando a forma não se aguenta.
Isto não é pontual. É um erro de método. Persistente.
Continuamos a tratar o processo criativo como um ato individual, quando na realidade é pura cooperação. O arquiteto pode orquestrar, mas as notas são tocadas por todos. A criação é coletiva. Está distribuída. Arquitetos, engenheiros, especialistas, técnicos: todos detêm partes críticas da resposta. Ignorar isso não é uma opção estética. É incompetência metodológica.
O arquiteto não sabe tudo. Nunca soube. E quanto mais tarde assumir isso, mais caro se torna o erro.
Integrar o conhecimento de todos desde o início, antes da primeira linha, não limita a criatividade. Evita a ilusão. Quanto mais cedo o projeto enfrentar as suas condicionantes reais (técnicas, construtivas, económicas ou mesmo o plano de negócios do cliente), mais assertiva será a resposta.
Caso contrário, continuamos a produzir objetos que funcionam no papel e falham na realidade. Projetos que exigem correção em vez de execução. Tempo perdido. Dinheiro perdido. Projetos em gaveta.
E isto não é apenas um problema da disciplina. Tem impacto direto na habitação. A escassez de oferta não resulta só de fatores externos. Resulta também de um sistema que erra, demora e corrige demasiado.
O preço do terreno, o financiamento, o risco, a carga regulatória, a inércia e o receio inculcado pela caça às bruxas nas entidades reguladoras — tudo conta. Mas há uma lei que não desaparece: quando a oferta aumenta, a pressão sobre os preços diminui. O problema é que não conseguimos produzir com a velocidade e consistência necessárias. E cada erro de projeto agrava isso.
Fala-se de industrialização. Fala-se de desburocratização. E bem. Mas fala-se pouco da base: a forma como pensamos antes de desenhar.
Projetar com todos à mesa desde o primeiro momento não é sofisticação. É o mínimo exigível.
No fundo, o problema não é técnico. É cultural.
E talvez por isso a resposta para este constrangimento seja tão simples quanto difícil:
Humildade.
Paulo Merlini
Founder e Managing Partner da PMA - Paulo Merlini Architects
*Texto escrito com novo Acordo Ortográfico















