Luz ao fundo do túnel?
De acordo com as estimativas da neoturis (à data de 24 de Março) o impacto da pandemia no sector do turismo, mais especificamente da sua vertente de alojamento, poderá ser próximo do seguinte:
- Em Lisboa: a taxa de ocupação quarto, que em 2019 se situou nos 76,1%, vai cair cerca de 33 pp e situar-se-á nos 42,6% em 2020; Os proveitos totais por quarto ocupado, que se situaram nos € 182 em 2019, ficarão nos € 148,5 em 2020, ou seja uma redução de 18,4%; ou seja, para um total de proveitos de 1 359 milhões de euros em 2019, iremos evoluir para 637 milhões de euros em 2020, uma redução de 722 milhões de euros (- 53,1%).
- No Algarve: a taxa de ocupação quarto, que em 2019 se situou nos 65,8%, vai cair cerca de 29 pp e situar-se-á nos 36,8% em 2020; Os proveitos totais por quarto ocupado, que se situaram nos € 115 em 2019, ficarão nos € 80 em 2020, ou seja uma redução de 30,5%; Ou seja, para um total de proveitos de 1 226 milhões de euros em 2019, iremos evoluir para 495 milhões de euros em 2020, uma redução de 731 milhões de euros (- 59,6%).
Estas estimativas – que falam por si! – não apresentam tendência de melhoria à data em que escrevo o presente artigo (2 de Abril).
Um verdadeiro tsunami com consequências dificeis de antecipar na sua plenitude neste momento. Algumas considerações que nos parecem hoje prováveis e mais direcionadas ao universo de leitores do Diário Imobiliário:
- Não abertura de algumas unidades hoteleira pós-crise, principalmente, mas não exclusivamente, fora de Lisboa, do Porto ou do Algarve; consequente possibilidade de virem a mercado empreendimentos para venda. O nível de desconto de preço face ao período pré-crise é uma questão que ainda é dificil antecipar;
- Uma quantidade muito significativa de apartamentos/prédios, atualmente comercializados como Alojamento Local, irão muito provavelmente deixar de estar alocados a esta função e serão transferidos para o mercado de arrendamento residencial tradicional ou de venda para habitação. Este fato terá inevitavemente consequências nos preços do imobiliário em cidades como Lisboa ou Porto;
- Forte desaceleração da venda do denominado produto Turismo Residencial. É um produto que tem relação direta com os fluxos turísticos, com o rendimento das famílias e com o clima de confiança; todos eles em forte quebra nas semanas e meses mais próximos;
- Maior dificuldade na obtenção de crédito junto do sistema financeiro, assim como agravamento das taxas de juro associadas;
- Suspensão de alguns projetos de promoção hoteleira e imobiliária residencial associada ao mercado turístico, pelo menos até ao final do ano; os existentes terão que realinhar as suas estratégias promocionais e/ou comerciais;
- Eventual surgimento de iniciativas similares à anterior crise económica e financeira, nomeadamente o desenvolvimento de veículos de recuperação de empresas em forte parceria com as instituições financeiras;
- Provável abandono de políticas de reversão de instrumentos como os denominados Golden Visa ou o regime fiscal para residentes não habituais … não nos parece altura para tocar no tema, que não seja para o tornar mais atrativo.
Não é por isso um cenário animador, sendo que, por outro lado podem existir alguns elementos de esperança. Portugal, apesar de tudo, pode não integrar o grupo de países com situações mais extremas (como Itália ou Espanha), o seu sistema de saúde terá funcionado e gerado confiança e, pode por isso, constituir destino de “refúgio” – dando sequência ao fato de já se encontrar no radar de muitos investidores ao longo dos últimos anos – para turistas, compradores de Turismo Residencial e investidores.
Para isso importa, desde já, operacionalizar uma estratégia que permita diferenciar e comunicar Portugal, assim como estabelecer a confiança de investidores e turistas. A dois níveis: do investimento [pela facilidade, celeridade e flexibilidade dos processos de licenciamento, pela capitalização do mercado – ? – ou pela competitividade fiscal garantida e contratualizada] e da operação [pela implementaçao e monitorização de medidas de higienização ao longo da cadeia de valor do setor, mas também por ajustamentos à legislação laboral]. A cooperação entre setor público e privado é fundamental neste período … sem extremar de posições e com a ponderação que um momento disruptivo como este obriga.
É naturalmente mais fácil escrever do que fazer, mas a verdade é que a tal luz se aproximará mais rápido se as medidas estiverem no terreno – e forem comunicadas.
Acreditamos que a luz está lá e esperamos que possa começar a ser vista já nas próximas semanas.
Eduardo Abreu
Neoturis
* Texto escrito com o novo acordo ortográfico