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Os amigos

28 de março de 2022

Há uns tempos atrás pedi para me contarem se é possível ter amizades dentro do imobiliário ou se este é um sector de tal forma traiçoeiro que, na primeira oportunidade, os supostos amigos trocam-nos por alguns milhares de euros ou vendem-nos por uma percentagem maior no negócio. Recebi inúmeras respostas que me deixaram por um lado inquieto – e daí o meu último artigo sobre os calculistas – mas também não quis deixar de vos mostrar que, tal como cada moeda tem duas faces, também neste sector nem tudo é mau e há, de facto, quem consiga ter amigos no Imobiliário.

Entre os vários contributos que fui recebendo, e centrando-me agora nos que têm inputs positivos do sector, pude reparar que a tónica dominante assenta em dois pressupostos essenciais: o respeito e a confiança. E, se formos a ver bem, eu diria que estas são as pedras basilares para uma relação de sucesso. Pessoal ou profissional.

Se eu não respeito o meu interlocutor, se não lhe reconheço competência e/ou credibilidade, o mais natural é que na primeira oportunidade o deixe cair. Se somarmos a isto pessoas sem princípios e sem escrúpulos, em que o carácter se vende por um mero prato de lentilhas, o natural é que esta relação esteja condenada ao fracasso. Não conseguimos construir um vínculo profissional e, por isso, também não evoluímos para uma relação mais pessoal.

De igual forma, eu diria que a confiança é o segundo pilar a ter em consideração. E todos sabemos o quão difícil é confiarmos em alguém neste sector, sem que primeiro não venham as toneladas de papel e burocracia a pedir NDA´s, referências de clientes, transparência e verdade.

Acredito que, num primeiro momento – ou em face dos primeiros negócios conjuntos -  esta confiança tenha que vir blindada nas inúmeras teias burocráticas que os consultores imobiliários adoram enredar-se. Felizmente também pude constatar que ainda existem pessoas no sector que lidam na base do shaking hands, e que sabem que a confiança (e a cumplicidade) se criam através de passos certos e seguros em que cada um dá o melhor de si.

Tal como acontece no mundo lá “fora”, no imobiliário quem tem amigos não arrisca muito nem se mete em muitas aventuras. Tem um leque restrito de pessoas em quem confia e pode contar e lidam entre si de forma pessoal e profissional. À medida que os anos vão avançando, este círculo restrito pode ir aumentando. Mas, diz quem já anda nisto há uns anos valentes que, infelizmente, a tendência no sector é para diminuir cada vez mais o leque de amizades, não as misturando com trabalho. No fundo, dando corpo à expressão do conhecido ditado: “Amigos, amigos, negócios à parte”.

Francisco Mota Ferreira

Trabalha com Fundos de Private Equity e Investidores e escreve semanalmente no Diário Imobiliário sobre o sector. Os seus artigos deram origem ao livro “O Mundo Imobiliário” (Editora Caleidoscópio).