
João Abel Manta Lisboa (28 de janeiro de 1928 — Lisboa, 15 de maio de 2026)
Portugal perdeu na sexta-feira um dos seus maiores artistas. João Abel Manta morreu em casa, em Lisboa, aos 98 anos. A sua obra atravessa décadas, regimes e disciplinas — do cartoon político à arquitectura, da azulejaria à tapeçaria, da ilustração à pintura. Nascido em 1928 numa família de pintores — Abel Manta e Clementina Carneiro de Moura —, formou-se em Arquitectura em 1951, tendo-se depois dedicado à pintura, cerâmica, tapeçaria, mosaico, ilustração, artes gráficas e cartoon.
A vida foi marcada cedo pela resistência. Em Fevereiro de 1948, com apenas 20 anos, foi detido pela PIDE por actividade no Movimento de Unidade Democrática Juvenil e por distribuição de material subversivo. Esteve duas semanas em Caxias, a partilhar cela com o artista Ernesto de Sousa — e não deixou de desenhar. Alguns desses desenhos só foram mostrados ao público em 2024.
É sobretudo pelo cartoon político que o nome ficou inscrito na história cultural portuguesa. Nos anos anteriores e posteriores ao 25 de Abril de 1974, publicou regularmente no Diário de Lisboa, Diário de Notícias, O Jornal e no Jornal de Letras, tendo sido o primeiro director de arte deste último. Os cartazes de apoio ao Movimento das Forças Armadas e as caricaturas da agonia do salazarismo tornaram-se imagens de uma época. As Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar, publicadas em 1978 e reeditadas pela Tinta-da-China, são consideradas a mais relevante publicação editorial da sua carreira.
Mas o universo de João Abel Manta era muito mais vasto. Desenhou as tapeçarias do Salão Nobre da Fundação Calouste Gulbenkian e projectou o Conjunto Habitacional da Avenida Infante Santo, em Lisboa. Na arte pública, assinou parte do desenho da calçada portuguesa na Praça dos Restauradores e o mural de azulejos da Avenida Calouste Gulbenkian. Depois da morte do pai, em 1982, afastou-se progressivamente do cartoon e entregou-se à pintura — um território mais sombrio, habitado por figuras perturbadoras e autorretratos que revelam um lado confessional pouco conhecido do grande público.
O Presidente da República António José Seguro lamentou a morte, reconhecendo-o como "um dos artistas mais populares" do país e um "historiador em movimento" que retratou os anos finais do salazarismo e os primeiros da revolução de Abril. "Nada lhe escapou do que estava a mudar ou prestes a mudar-nos", sublinhou.
Foi várias vezes distinguido ao longo da carreira, nomeadamente pela Fundação Calouste Gulbenkian, com a Medalha de Prata na Exposição Internacional de Artes Gráficas de Leipzig (1965) e com o Prémio de Ilustração na mesma feira (1975). O Estado português condecorou-o com a Ordem Militar de Santiago da Espada e com a Ordem da Liberdade. A neta do artista, Mariana Manta Aires, afirmou que o objectivo da família é que o trabalho do avô "seja visto e admirado" — e que, no futuro, possa ter um espaço museológico próprio.
Com Lusa e vária imprensa nacional/DI



















