
Rui Castilho Dias, Manager em Administração Pública e Territórios na Minsait em Portugal (Indra Group)
Cidades Inteligentes: Tecnologia ao serviço do valor público
As cidades enfrentam hoje um ponto de viragem decisivo. Nunca se recolheram tantos dados, nunca se instalaram tantos sensores, nunca houve tantas plataformas e aplicações “inteligentes”. No entanto, a verdadeira transformação urbana não se mede pela quantidade de tecnologia implementada, mas sim pela capacidade de essa tecnologia gerar valor tangível na vida das pessoas. A maturidade das cidades depende não exclusivamente do que conseguem digitalizar, mas da forma como utilizam informação para antecipar necessidades, melhorar a coordenação pública e promover o bem-estar coletivo.
É neste contexto que o conceito das Cidades Inteligentes 5.0 ganha relevância. Mais do que uma evolução tecnológica, representa uma mudança de paradigma: de cidades que apenas “conectam” para cidades que realmente aprendem, atuam, integram e cuidam. Uma cidade inteligente não é aquela que recolhe mais dados, mas a que os transforma em inteligência operacional capaz de melhorar a vida quotidiana, seja na eficiência energética, na mobilidade, na segurança urbana, na gestão ambiental ou na inclusão digital.
Esta mudança de paradigma não é uma abstração, pois projetos em curso demostram que, quando existe uma visão integrada e centrada nas pessoas, os resultados tornam-se mensuráveis. Em contextos onde foram implementados centros de gestão urbana unificados, verificaram-se reduções consistentes nos tempos de resposta operacional e maior capacidade de antecipar incidentes. Em iniciativas que apostam na análise avançada de dados, é possível otimizar consumos, prever padrões de utilização de serviços e apoiar decisões estratégicas, antes inacessíveis. Em programas de literacia e inclusão digital, cresce substancialmente a utilização dos serviços públicos digitais e, com isso, a confiança dos cidadãos.
Mas esta evolução só se concretiza quando três elementos trabalham em conjunto: uma gestão responsável e eficaz dos dados urbanos, uma coordenação institucional ágil entre diferentes serviços e uma aposta clara na capacitação digital das populações. O primeiro garante que a informação é segura, interoperável e útil; o segundo evita duplicações, reduz silos administrativos e permite que a cidade funcione como uma orquestra; o terceiro assegura que o progresso tecnológico não aprofunda desigualdades, mas antes as reduz.
Esta visão deve fazer parte de um compromisso diário com o setor público, com as empresas a trabalharem para que as cidades possam beneficiar de soluções que unificam dados, modelos analíticos que apoiam decisões baseadas em evidência e ecossistemas operacionais que permitam responder de forma coordenada, eficiente e transparente. Acredito que a tecnologia deve ser um catalisador de equidade e sustentabilidade, e que qualquer transformação só se completa quando é sentida por todos, seja para simplificar a vida aos cidadãos, produzir conteúdos para apoiar decisões com impacto territorial, promover a competitividade económica ou aproximar comunidades.
A cidade verdadeiramente inteligente é, por isso, aquela que coloca a tecnologia ao serviço de um propósito comum. Uma cidade capaz de reduzir desigualdades, reforçar a resiliência climática, promover a inclusão digital, antecipar problemas e criar novas oportunidades de participação e bem-estar. É essa visão, simultaneamente tecnológica e humana, que deve orientar os próximos anos e é esse caminho que, em conjunto com os territórios, devemos continuar a construir.
Rui Castilho Dias
Manager em Administração Pública e Territórios na Minsait em Portugal (Indra Group)
*Texto escrito com novo Acordo Ortográfico













