
Habitação
Stravillia e MOME querem trazer o modelo de cost-rental para Portugal
A Stravillia e a MOME estão a trabalhar na adaptação a Portugal do modelo de cost-rental, uma solução de habitação de longo prazo em que a renda não é determinada diretamente pelos valores praticados no mercado, mas pelos custos reais associados ao edifício ao longo da sua vida útil. A parceria foi anunciada em julho de 2026 e surge num contexto de forte pressão sobre o acesso à habitação no país.
O objetivo passa por criar uma alternativa entre a habitação promovida diretamente pelo Estado e os modelos privados de venda ou arrendamento a preços de mercado. Nos modelos de cost-rental, os imóveis permanecem numa lógica de arrendamento de longo prazo e podem ser detidos e geridos por entidades sem fins lucrativos ou de lucro limitado, permitindo que o capital gerado permaneça no sistema e contribua para financiar novas operações.
Portugal está distante de outros mercados europeus
A aposta das duas empresas parte também de uma realidade em que Portugal apresenta uma expressão reduzida da habitação pública e sem fins lucrativos. Segundo os dados apresentados no documento, este segmento representa cerca de 2% do parque habitacional português, contra aproximadamente 20% na Dinamarca, 24% na Áustria e 29% nos Países Baixos.
Os valores não correspondem diretamente à dimensão do cost-rental em cada um destes países, mas evidenciam a diferença de escala entre Portugal e mercados onde os modelos de arrendamento fora da lógica de mercado adquiriram maior expressão.
É sobretudo na Áustria e na Dinamarca que a lógica da renda baseada nos custos reais assume maior relevância. A intenção da MOME e da Stravillia é estudar de que forma estas experiências podem ser adaptadas às condições portuguesas, mantendo a sustentabilidade económica dos projetos e a acessibilidade das rendas.
Sustentabilidade passa a ter impacto direto na renda
Num modelo em que a renda está ligada aos custos efetivos do edifício, a qualidade da construção ganha uma dimensão financeira adicional. Eficiência energética, durabilidade dos materiais, necessidades de manutenção e custos de operação passam a influenciar diretamente o custo de utilização do imóvel ao longo das décadas.
É nesta área que a Stravillia assume um papel central, trabalhando na medição da pegada de carbono dos edifícios ao longo do ciclo de vida e na integração de critérios de sustentabilidade na estrutura do modelo. A empresa participa também na definição de soluções de financiamento orientadas para impacto e no aprofundamento da certificação B Corp.
“Uma construção eficiente, com materiais duráveis e menores necessidades de manutenção, reduz os custos ao longo da vida do edifício e ajuda a manter as rendas mais acessíveis”, explica Francisco Neves, CEO da Stravillia.
A lógica é particularmente relevante num modelo de arrendamento de longa duração, em que os custos de energia, manutenção e substituição de equipamentos permanecem associados ao imóvel durante várias décadas.
Custo do financiamento é determinante
Além dos custos de construção e operação, o modelo depende das condições de financiamento. Como os ativos são pensados para serem amortizados ao longo de períodos prolongados, o custo do capital pode ter um impacto significativo na renda final.
A Stravillia está, por isso, a trabalhar na identificação e estruturação de soluções de financiamento orientado para impacto, procurando mecanismos compatíveis com o horizonte temporal do cost-rental.
“O cost-rental não é uma questão de boa vontade, é uma questão de custo de capital”, afirma Thomas Pinto Basto, Diretor Executivo da Stravillia, defendendo que as condições de financiamento podem ter um impacto significativo na acessibilidade das rendas ao longo da vida do projeto.
MOME assume desenvolvimento dos projetos
Na parceria, a MOME ficará responsável pelo desenvolvimento do modelo e dos futuros projetos, incluindo a conceção, o desenho e a articulação com o território e as entidades públicas. A Stravillia concentra a sua intervenção no financiamento, sustentabilidade, carbono e governação.
A iniciativa beneficia também de um contexto europeu que tem vindo a colocar a habitação acessível no centro das políticas públicas. O documento destaca o Plano Europeu de Habitação Acessível, apresentado em dezembro de 2025, e as alterações às regras de auxílios de Estado para serviços de interesse económico geral, bem como a criação de uma plataforma pan-europeia de investimento com o Banco Europeu de Investimento.
Primeiras casas só daqui a pelo menos quatro anos
Apesar do potencial do modelo, as empresas deixam claro que o projeto está ainda numa fase inicial. A prioridade passa atualmente pela definição do modelo, enquadramento legal e estrutura de financiamento, seguindo-se posteriormente o desenvolvimento dos projetos.
A MOME salienta que o cost-rental não pretende ser uma resposta imediata à atual procura de habitação. Segundo Francisco Rocha Antunes, fundador e presidente executivo da empresa, o processo deverá demorar “nunca menos de 4 anos”, desde a definição do modelo e enquadramento legal até ao financiamento e à construção dos primeiros projetos.
A expectativa é que, à medida que o trabalho avance, sejam divulgados dados sobre a estrutura de financiamento e os pressupostos utilizados para calcular as futuras rendas.
Mais do que uma resposta imediata à crise habitacional, a iniciativa pretende testar em Portugal um modelo de habitação de longo prazo assente numa combinação de capital paciente, sustentabilidade dos edifícios e rendas desligadas da valorização especulativa do mercado imobiliário.















