Logo Diário Imobiliário
CONSTRUÍMOS
NOTÍCIA
Brain PowerHaierJPS Group 2024Porta da Frente
Actualidade
Sines: Igreja ligada a Vasco da Gama reabre em julho após obra de 450 mil euros

Foto CM de Sines

Sines: Igreja ligada a Vasco da Gama reabre em julho após obra de 450 mil euros

30 de junho de 2026

A Igreja de Nossa Senhora das Salas, em Sines, um dos monumentos mais emblemáticos ligados a Vasco da Gama, prepara-se para reabrir ao público em Julho, ainda sem data definida, depois de uma intervenção de restauro que mobilizou um investimento total de 450 mil euros, financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

A história deste templo remonta, contudo, a muito antes do navegador. No final do século XIII ou início do século XIV, a princesa grega Betaça Lescaris — que viera para Portugal para ser dama de honor da futura rainha D. Isabel — mandou erguer uma primeira igreja no local, em acção de graças por um suposto milagre ocorrido durante a viagem marítima que a trouxe ao país. Modesta e de nave única, essa construção primitiva transformou-se rapidamente num importante destino de peregrinação. Seria só mais tarde, talvez também em agradecimento por um êxito marítimo — desta vez o sucesso da viagem à Índia em 1498 —, que Vasco da Gama decidiu reedificar o templo de raiz, dando-lhe a escala grandiosa que ainda hoje se reconhece, e cumprindo assim um voto feito na sua terra natal.



Vasco da Gama. Imagem wikipedia



Uma intervenção que "fecha um ciclo"

Segundo dados fornecidos à agência Lusa pelo Património Cultural – Instituto Público, dos 450 mil euros investidos, 200 mil corresponderam à empreitada de obras, que incluiu trabalhos de conservação, reabilitação do pavimento, melhoria da ventilação, recuperação de cantaria e criação de novas condições de utilização do espaço. O restante investimento foi canalizado para a recuperação das peças do Tesouro da igreja, o lançamento de uma monografia sobre a história do imóvel e acções de dinamização cultural.

Classificada como Monumento Nacional, a igreja começou a ser intervencionada no contexto das comemorações dos 500 anos da morte de Vasco da Gama. Para a arquitecta Rita Vale, do Património Cultural, esta fase de obras "vem fechar um ciclo" de trabalhos anteriormente realizados no edifício. "Neste momento, fica totalmente restaurada", afirmou, destacando em particular a conservação e o restauro do portal e da pedra do monumento, para os quais foram escolhidos "os materiais mais adequados" para resistir às intempéries e às alterações sofridas ao longo dos séculos.



Tesouro da igreja



Do chão cerâmico à madeira, e um novo altar

Uma das mudanças mais visíveis foi a substituição do antigo pavimento cerâmico assente sobre areia — resultado de uma intervenção feita nos anos 40 — por um novo chão em madeira de pinho, instalado sobre uma caixa-de-ar ventilada para combater a humidade, explicou o arquitecto Ricardo Pereira, da Câmara de Sines. Além do pavimento, a obra abrangeu rebocos, coberturas, cantarias, sistemas de drenagem e retábulos, e incluiu ainda a instalação de uma casa de banho integrada na arquitectura do edifício.

O espaço ganhou também um novo altar, desenhado pelo arquitecto Vítor Mestre, com peças criadas especificamente para o local, como um frontal em linho bordado, além de trabalhos contemporâneos das criadoras locais Andreia Gil e Tânia Gil. "A intervenção contemporânea é absolutamente fundamental para podermos também deixar aqui uma marca construtiva" e envolver novas gerações na vida do templo, sublinhou Ricardo Pereira.

O interior do monumento mantém ainda os seus 12 painéis de azulejos, também alvo de intervenção, que retratam referências ao mundo atlântico e ao império português, incluindo a representação de um índio do Brasil. "O grande elemento patrimonial, o nosso grande elemento histórico, é o mar", observou o arquitecto, lembrando que "o mar explica quase tudo" o que se passa neste território.



Património, turismo e culto

Para o arquitecto Ricardo Pereira, esta igreja restaurada representa "o mais importante edifício" que Vasco da Gama legou a Sines. Já o presidente da Câmara de Sines, Álvaro Beijinha (PCP/PEV) — entidade gestora do imóvel —, sublinhou que a intervenção é "fundamental a vários níveis": preserva um património que é de todos e reforça, simultaneamente, a atractividade turística da região, sem esquecer a vertente do culto religioso. O autarca classificou ainda a obra como um exemplo de "investimento público bem feito".

Olhando para o futuro, Rita Vale defendeu a necessidade de criar, em articulação com o município, um plano de manutenção e monitorização que garanta a longevidade do monumento. "Já durou 500 anos, nós queremos que dure no mínimo mais 500", afirmou.

Lusa/DI