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Opinião
Formação: O investimento que o imobiliário já não pode adiar

Fernanda Pedro, directora do Diário Imobiliário

Formação: O investimento que o imobiliário já não pode adiar

8 de julho de 2026

O sector imobiliário português atravessa um dos períodos mais exigentes das últimas décadas. À pressão da crise da habitação juntam-se novas exigências regulatórias, a digitalização dos processos, a transição energética, a industrialização da construção, a inteligência artificial e um mercado cada vez mais sofisticado, onde investidores, clientes e financiadores exigem maior transparência, conhecimento técnico e capacidade de adaptação. Apesar desta transformação acelerada, a formação dos profissionais continua, em muitos casos, a ser encarada como um custo e não como um investimento estratégico.

Durante muitos anos, o imobiliário foi um sector onde a experiência adquirida no terreno parecia suficiente para garantir o sucesso. Esse paradigma deixou de existir. Hoje, um promotor imobiliário precisa de compreender sustentabilidade, financiamento, fiscalidade, planeamento urbano, inovação tecnológica e tendências de mercado. Um mediador deve dominar marketing digital, análise de dados, negociação e enquadramento legal. Um gestor de activos ou de condomínios tem de acompanhar alterações legislativas permanentes e responder a clientes cada vez mais informados e exigentes.

O problema é que a oferta formativa nem sempre acompanhou esta evolução. Continua a existir uma fragmentação significativa entre formação técnica, académica e profissional, muitas vezes desarticulada das necessidades reais das empresas. Há programas demasiado teóricos, outros excessivamente focados em aspectos operacionais e poucos que consigam combinar visão estratégica, competências práticas e conhecimento multidisciplinar.

A consequência sente-se diariamente. Persistem lacunas na qualificação de muitos profissionais, dificuldades em atrair jovens talentos para o sector e uma escassa cultura de aprendizagem contínua. Num mercado em rápida transformação, esta realidade traduz-se numa menor capacidade de inovação, numa resposta mais lenta aos desafios e, em alguns casos, numa perda de competitividade.

Outro desafio passa pela velocidade da mudança. A inteligência artificial, por exemplo, já está a alterar a forma como se analisam mercados, se avaliam activos, se produzem conteúdos comerciais ou se gerem edifícios. A digitalização dos licenciamentos, os edifícios inteligentes e as novas ferramentas de gestão exigem competências que, há poucos anos, simplesmente não faziam parte da actividade imobiliária.

Também a sustentabilidade deixou de ser apenas um conceito associado ao ambiente. Hoje influencia decisões de investimento, acesso ao financiamento, valorização dos activos e cumprimento regulatório. Ignorar esta realidade representa um risco crescente para empresas e profissionais.

Perante este cenário, torna-se evidente que o sector precisa de uma nova abordagem à formação. Mais do que cursos pontuais, importa criar uma verdadeira cultura de qualificação contínua, onde empresas, associações, universidades e escolas de negócios trabalhem em conjunto para antecipar competências futuras e responder às necessidades concretas do mercado.

Essa formação deve ser transversal, prática e flexível. Deve combinar liderança, gestão, inovação, tecnologia, sustentabilidade e conhecimento jurídico, aproximando o mundo académico da realidade empresarial. Mas deve também preparar os profissionais para aquilo que ainda não conhecemos. Afinal, muitas das funções que existirão daqui a dez anos ainda estão por definir.

Há igualmente uma oportunidade para reforçar a imagem do próprio sector. Um mercado mais profissional, mais qualificado e mais preparado gera maior confiança junto dos investidores, dos clientes e da sociedade. A valorização das pessoas traduz-se inevitavelmente na valorização das empresas e dos activos que gerem.

Portugal tem hoje um sector imobiliário reconhecido internacionalmente pela capacidade de atrair investimento e desenvolver projectos de elevada qualidade. Para manter essa posição, não basta investir em novos edifícios ou em novas tecnologias. É indispensável investir nas pessoas.

Porque, no futuro do imobiliário, o maior activo continuará a ser o conhecimento. E esse constrói-se todos os dias, através de uma formação que acompanhe a velocidade das mudanças e prepare os profissionais para um mercado onde a única constante será, precisamente, a transformação.

Fernanda Pedro

Directora do Diário Imobiliário

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