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Opinião
Miguel Mota, CEO da MM Imóveis

Miguel Mota, CEO da MM Imóveis

Comprar casa? Talvez daqui a 10 anos

23 de março de 2026

“Comprar casa? Talvez daqui a 10 anos.” Durante anos, esta foi uma das respostas que mais ouvi de clientes jovens quando entravam numa agência imobiliária. Empregos estáveis, rendimentos consistentes, vontade de sair do arrendamento, mas sempre a mesma conclusão: ainda não era o momento.

Hoje, pela primeira vez em muito tempo, essa resposta começa a mudar. E o principal responsável é um tema que está no centro das conversas, das notícias e das decisões familiares: o crédito habitação jovem. Mas como profissional que acompanha diariamente compradores, vendedores e investidores, sinto que existe um problema sério. Fala-se muito da medida, mas explica-se pouco o seu impacto real no mercado, nas decisões financeiras e no futuro de quem compra. Este artigo não é sobre política nem sobre promessas. É sobre realidade imobiliária.

Durante anos, o maior bloqueio para os jovens nunca foi a prestação mensal. Foi a entrada inicial. O próprio Banco de Portugal tem vindo a identificar a exigência de capitais próprios como um dos principais obstáculos ao acesso ao crédito por parte de novos compradores, o que na prática significa que muitas famílias têm rendimento para pagar a casa mas não conseguem ultrapassar a barreira inicial da compra. O crédito habitação jovem surge exatamente nesse ponto e altera algo fundamental no mercado: o momento em que alguém consegue avançar. Quando milhares de pessoas passam de “gostava de comprar” para “vou comprar agora”, o mercado não reage de forma lenta, reage de forma imediata.

Essa mudança já é visível no terreno. Muitos jovens que antes visitavam casas apenas para perceber preços entram hoje com a parte financeira já encaminhada e com intenção real de fechar negócio. As decisões tornam-se mais rápidas, as negociações mais curtas e a probabilidade de venda aumenta significativamente. Esta transformação não é apenas social, é também económica, e é aqui que entra o efeito menos falado desta medida.

Sempre que o acesso ao crédito é facilitado de forma relevante para um grande número de compradores, a consequência mais direta é o aumento da procura efetiva. Quando a procura cresce mais depressa do que a oferta disponível, a pressão sobre os preços torna-se praticamente inevitável. No contexto português, onde a construção nova continua abaixo das necessidades do mercado e a oferta disponível é limitada nas tipologias mais procuradas, este efeito torna-se ainda mais evidente. O resultado é uma competição maior pelos mesmos imóveis, decisões mais rápidas por parte dos compradores e, muitas vezes, valores finais superiores aos inicialmente anunciados. O crédito jovem ajuda a comprar, mas ao mesmo tempo pode contribuir para acelerar a valorização das casas exatamente nos segmentos onde esses compradores entram primeiro.

Isto não significa que a medida seja negativa. Significa apenas que funciona e que, como qualquer estímulo forte à procura, produz efeitos em cadeia no mercado. O verdadeiro risco não está na medida em si, mas na forma como cada comprador a utiliza. A facilidade de acesso ao crédito pode levar alguns jovens a assumir o limite máximo aprovado pelo banco, mas o banco avalia risco financeiro técnico e não a imprevisibilidade da vida real. Entre os 25 e os trinta e 35 acontecem mudanças profissionais, familiares e pessoais inevitáveis, e uma casa financeiramente sustentável é aquela cuja prestação continua confortável mesmo depois de uma alteração inesperada no rendimento ou na estrutura familiar.

Outro erro comum é olhar apenas para a prestação mensal e esquecer o custo real de ter casa. Condomínio, seguros, manutenção, impostos e reparações fazem parte da equação e acumulam valores que, somados, podem alterar completamente o esforço financeiro real da habitação. Quem ignora este conjunto não está apenas a comprar uma casa, está a assumir uma responsabilidade financeira de longo prazo que precisa de ser calculada com realismo.

Apesar destes riscos, existe um sinal muito positivo nesta nova geração de compradores. O jovem de hoje está menos focado na casa de sonho e mais focado na casa estratégica. Procura eficiência energética, bons acessos, potencial de valorização e facilidade futura de venda. Muitos escolhem já a primeira casa a pensar na liquidez que poderá ter no futuro, uma mentalidade que até há poucos anos era típica apenas de investidores experientes. Esta mudança de postura traz mais racionalidade ao mercado e, no longo prazo, tende a produzir decisões de compra mais sólidas.

O crédito habitação jovem pode ser uma oportunidade real para acelerar a construção de património e permitir que muitas famílias entrem mais cedo no ciclo de valorização imobiliária. Pode transformar renda mensal em capital próprio e antecipar anos no percurso financeiro de uma geração inteira. Mas a diferença entre oportunidade e problema continua a ser a preparação. Quem começa pela casa pode cometer erros caros. Quem começa pelo plano financeiro tende a tomar decisões mais seguras.

O crédito jovem não resolve sozinho o problema da habitação em Portugal, mas está a fazer algo muito relevante: está a transformar intenção em decisão. E quando isso acontece em larga escala, o mercado mexe-se inevitavelmente nos preços, na velocidade das vendas e na forma como as pessoas compram.

No imobiliário, raramente ganha quem espera pelo momento perfeito.

Normalmente ganha quem entende o mercado real e decide no momento certo.

Miguel Mota

CEO da MM Imóveis

*Texto escrito com novo Acordo Ortográfico