
Javad Hatami, CEO da Builtrix
Portugal não foi construído para este calor
O que se passou nas últimas semanas não é uma previsão, é a realidade que já vivemos: alertas vermelhos, temperaturas acima dos 40°C e os operadores da rede elétrica a avisar que tantos ares condicionados ligados ao mesmo tempo podem provocar cortes de energia localizados. Não é um cenário para 2050. Foi nas últimas semanas.
Um parque construído para um clima que já não existe
A maioria dos edifícios em Portugal foi projetada para reter calor no inverno, não para dissipar calor extremo no verão. Isto não é opinião, é um facto. E bem visível agora: basta olhar para o esforço dos sistemas de arrefecimento só para manter temperaturas suportáveis. Ares condicionados sem descanso, consumos a disparar, e ainda assim muitos espaços continuam quentes demais para serem seguros.
A Agência Europeia do Ambiente já identificou o sobreaquecimento dos edifícios como prioridade de adaptação climática, ligada a saúde pública e pobreza energética de verão. A Avaliação de Risco Climático da UE de 2024 é direta: as políticas atuais são insuficientes face à velocidade das alterações climáticas, e o stress térmico nos edifícios é um dos maiores gaps identificados. A própria Comissão Europeia já reconheceu de forma explícita que o parque edificado da UE é vulnerável ao aumento das temperaturas e precisa de ser adaptado. E só a reabilitação e normas de eficiência mais exigentes conseguem inverter este cenário. Em Portugal, casas com décadas de existência, já registam sobreaquecimento frequente todos os verões.
Isto não é sobre conforto. Porque quando um sistema de arrefecimento opera acima dos seus limites durante dias seguidos, consome mais energia, desgasta-se mais depressa e, nalguns casos, falha por completo, precisamente quando as pessoas mais precisam dele. Um AC que falha num dia de 40°C não é um inconveniente. É um risco para a saúde dos ocupantes e um custo imediato para quem gere o ativo.
O certificado energético não responde à pergunta certa
Portugal mede o desempenho energético de um edifício através do Certificado de Desempenho Energético (EPC), com o prazo legal de 2027 da EPBD (Energy Performance of Buildings Directive), a principal diretiva da União Europeia focada na melhoria da eficiência energética como referência. Mas um certificado é uma fotografia do passado. Não diz nada sobre como um edifício está a aguentar-se numa onda de calor como esta, hoje. Um edifício pode ter boa classificação e, mesmo assim, estar a sobreaquecer neste momento porque o EPC mede uma condição teórica registada há dois anos, não o presente.
O problema real? A maioria dos proprietários não consegue distinguir entre “o edifício está a aguentar bem o calor” e “o edifício está silenciosamente a falhar” até que algo avaria ou a fatura chega muito mais alta do que o esperado. Sem dados em tempo real, gerir um edifício num verão português é um exercício de fé.
Portugal vai continuar a ter verões mais quentes, essa parte não está em discussão. A pergunta que importa é outra: os proprietários e gestores de edifícios conseguem ver o que está realmente a acontecer dentro dos seus edifícios agora, ou apenas o que um certificado dizia há dois anos?
Quem gere ativos em Portugal deve fazer três coisas já: monitorizar o desempenho térmico em tempo real, não só à data do EPC, identificar os edifícios com maior risco de falha antes da próxima onda de calor e tratar a resiliência térmica como estratégia de valorização, não como nota de rodapé de sustentabilidade.
O calor extremo já não é exceção em Portugal. É o novo normal. E só quem tiver visibilidade sobre o que os seus edifícios estão realmente a fazer - hoje, não há dois anos - vai conseguir geri-los com segurança.
Javad Hatami
CEO da Builtrix
*Texto escrito com novo Acordo Ortográfico















