
Pandemia, Arquitectura e Real Estate
Estamos então chegados ao retomar da vida fora de casa após estes longos dois meses e meio trabalhando confinados e comunicando com o exterior sobretudo pela via digital.
Muito já se disse que, se o futuro próximo nos vai obrigar a estar mais resguardados de virus, haverá certamente que repensar o MODO DE HABITAR, enquadrando também o trabalhar, com as inerentes necessidades de maiores áreas interiores, de espaços de transição com o exterior, da relação com o verde, das necessidades do bom arejamento dos espaços, da boa orientação solar, de uma saudável relação com o espaço urbano público de proximidade.
Para tudo isso haverá muito Know How de todo o tipo de projectistas que se dedicam ao desenho de Edifícios , da Cidade e do Território em geral , que devidamente enquadrados pelo Poder Politico poderão vir a contribuir para uma cada vez melhor qualidade dos espaços onde vivemos e trabalhamos.
Mas já se percebeu também, pelos sinais recentes do chamado desconfinamento progressivo , que tudo voltará mais ou menos a ser como sempre foi , tirando o facto de talvez termos que acrescentar à nossa indumentária quotidiana uma máscara descartável, e perder-se uma oportunidade única de procurar criar alternativas de melhores condições de vida para todos.
Neste próximo mês de Junho haverá eleições na Ordem dos Arquitectos , de onde seria desejável saíssem novas e mais esclarecedoras premissas para um justo e equilibrado exercício da profissão de Arquitecto.
Sendo o perfil da Classe hoje em dia muito diversificado, e portanto com muitos e variados interesses e objectivos, há contudo a meu ver duas questões absolutamente centrais e decisivas para o exercício digno da profissão: uma é ÉTICA e outra pragmaticamente de ter que ser estabelecido com a maior urgência um CRITÉRIO DE CÁLCULO DE HONORÁRIOS, devidamente articulado com outros diferentes projectistas das mesmas áreas ( engenheiros, urbanistas, paisagistas ), correspondente com a responsabilidade que agora passa a ser pedidas pelas práticas do urbanismo digital recentemente implementadas pela Câmara Municipal de Lisboa, remetendo para a figura do coordenador de projecto a total responsabilidade pela boa prática de todos os projectos, engenharias incluídos e a sua desejada compatibilização.
Sendo como parece ser uma ferramenta de maior rapidez nas decisões de carácter administrativo e técnico, elas acarretam todavia que exista em paralelo uma clara definição dos honorários do projecto compatíveis com essa responsabilidade, e outras inerentes a uma prática profissional responsável.
Tirando os casos especiais dos projectos de autor para moradias de luxo , ou para edifícios de grande especialização curricular como podem ser por exemplo hospitais ou outros equipamentos do mesmo género de complexidade, o grande volume da actividade do projecto está ancorada no negócio do Imobiliário, sendo o cálculo dos respectivos honorários como é sabido, matéria de grande arbitrariedade.
Mais do que discussões académicas sobre os conceitos de qualidade e/ou capacidade conforme a dimensão maior ou menor dos diferentes agentes ou gabinetes de projectos, todos sabemos que não é a dimensão, seja ela pequena ou grande, que garante só por si uma boa qualidade de projecto, pelo que seria tempo de por uma vez se resolverem as reais e importantes questões de se poder ser ou não, Arquitecto em Portugal.
Perdeu-se o direito de autor o que é uma coisa perfeitamente inqualificável, bastando uma simples carta para se mudar de projectista sem o mínimo respeito pelo outro atirando para o lixo os valores mais básicos da ética profissional ; perdeu-se a importância da pesquisa fundamentada para as questões de como melhor habitar e tudo se estabelece em tipologias pré-definidas sem a mínima relação com os sítios, ditadas sobretudo pela imagem.
Os Arquitectos têm que voltar a ser os Homens que estudam os diferentes significados do Espaço Interior onde se vive e trabalha e com eles construir uma Cidade mais interessante de ser vivida.
João Paciência
Arquitecto