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Muralha do Castelo de Alcácer recuperada com técnica ancestral de taipa

Foto CMAS

Muralha do Castelo de Alcácer recuperada com técnica ancestral de taipa

13 de maio de 2026

A muralha sul do Castelo de Alcácer do Sal está a ser recuperada com taipa, técnica ancestral que utiliza terra e cal, numa intervenção que revela os desafios de conservar um monumento nacional com séculos de história.

A obra, no valor de 1,2 milhões de euros e financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), arrancou em Setembro de 2025 e tem conclusão prevista para Julho deste ano, de acordo com dados fornecidos pelo Património Cultural – Instituto Público (IP)

A empreitada incide sobre quatro troços da muralha, situados sobre aquela cidade e o Rio Sado, no distrito de Setúbal, e pretende consolidar a estrutura, repor elementos em falta e melhorar a drenagem das águas superficiais.

Numa visita aos ‘bastidores’ da obra, entre taipais de madeira, Miguel Rocha, da equipa projectista de arquitectura, explicou que a particularidade desta empreitada está no uso da taipa na construção original da muralha.

Não é tão diferente como as outras obras em património. O que é diferente é a técnica específica de construção, que é uma técnica muito pouco conhecida”, sublinhou Miguel Rocha, que é especialista em construção com taipa.

A opção pela taipa é também defendida por Ângelo Silveira, responsável do instituto Património Cultural, uma vez que respeita a natureza original da estrutura.

Esta muralha é originalmente em taipa”, embora ao longo do tempo tenham sido feitos acrescentos em pedra, “convencidos de que assim poderiam dar-lhe mais durabilidade”, afirmou.

Por isso, acrescentou, a actual intervenção de consolidação acaba também por funcionar "como ensaio para futuros trabalhos noutros troços da muralha".

No caso de Alcácer do Sal, a taipa está ligada à própria história do castelo e ao reaproveitamento de materiais existentes no local.



Muralha sul do castelo, virada ao rio Sado. Foto CMAS



A taipa fazia-se com a terra que estava no local”, explicou Miguel Rocha, lembrando a proximidade ao antigo Fórum Romano de Alcácer do Sal e a incorporação de elementos romanos na construção da muralha.

Exemplo disso é o elemento escultórico em mármore, associado a uma toga romana, encontrado durante a intervenção, que terá sido reaproveitado no enchimento da estrutura da torre da muralha, explicou à Lusa o responsável da empresa Empatia Arqueologia, Conservação e Restauro, André Nascimento.

"Já temos autorização para que ele seja removido, como medida de salvaguarda", após a consolidação das paredes e o posterior "enchimento de pedra", esclareceu o também arqueólogo, revelando que também já foram encontrados "fragmentos cerâmicos de vários períodos cronológicos".



«Para esta obra, os responsáveis misturam terra humedecida com cal, para dar mais estabilidade à argila. A mistura é depois colocada em camadas dentro de caixas de madeira e compactada até ganhar resistência.»



Se for feito como deve ser, é um processo com tantos ou mais benefícios que a construção convencional hoje em dia”, defendeu Miguel Rocha.

A especificidade da técnica torna é a intervenção mais exigente do ponto de vista da mão de obra, partilhou com a Lusa Rafael Lopes, responsável pela execução dos trabalhos.

É muito difícil arranjar trabalhadores. Quando temos um projecto deste tipo, formamos equipas de trabalho, porque quase ninguém tem conhecimento suficiente” da técnica, reconheceu.

Além da consolidação da muralha, a drenagem das águas superficiais é uma das principais preocupações da empreitada, sobretudo por se tratar de uma zona baixa do castelo, para onde as águas escorrem.

Esta é a zona mais baixa de todo o castelo. Era muito importante fazer aqui também um tratamento do ponto de vista das drenagens”, afirmou igualmente durante a visita Albertina Rodrigues, engenheira civil do Património Cultural, responsável pelo acompanhamento da obra.

Quando a intervenção estiver concluída, estas especificidades do trabalho técnico deverão passar despercebidas ao olhar dos visitantes do castelo.

Mas, para Miguel Rocha, esse é também um dos sinais da conservação patrimonial: “A primeira coisa que [o público] não vai notar é a dedicação técnica de algumas pessoas” neste projecto.

Lusa/DI

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