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Lisboa entra no radar do risco de bolha imobiliária da UBS

 

Lisboa entra no radar do risco de bolha imobiliária da UBS

22 de setembro de 2026

Lisboa entrou pela primeira vez no UBS Global Real Estate Bubble Index e surge já na categoria de risco acrescido de bolha imobiliária, num ano marcado pela subida dos preços da habitação e pelo agravamento das dificuldades de acesso à casa. A capital portuguesa está entre as cidades onde os preços reais das habitações mais aumentaram no último ano, com uma valorização de cerca de 10%, segundo o estudo da UBS.

A edição de 2026 analisou os mercados residenciais de 23 grandes cidades mundiais, incluindo, pela primeira vez, Lisboa e Seul. No topo da escala de risco encontram-se Zurique e Tóquio, classificadas como mercados com risco elevado de bolha.

Lisboa surge no segundo nível de risco, ao lado de Miami, Dubai, Seul e Genebra. Miami, que tinha apresentado o risco mais elevado nas duas edições anteriores, recuou para a categoria de risco acrescido.

Lisboa entre as cidades onde o risco mais aumentou

A capital portuguesa registou, juntamente com Seul, o maior aumento do risco de bolha entre as cidades analisadas este ano.

O UBS atribui a evolução a um contexto de forte valorização residencial, num mercado que, ao longo da última década, beneficiou da entrada de capital e talento internacionais. Carlos Santos Lima, UBS Country Head em Portugal, considera que Lisboa constitui um exemplo particularmente relevante da diferenciação que está a marcar os mercados imobiliários internacionais.

“Ao longo da última década, a cidade beneficiou significativamente da atração de capital e talento internacionais”, afirma o responsável, citado no estudo.

A subida do risco não é, contudo, exclusiva de Lisboa. Os desequilíbrios também se intensificaram em Milão, Hong Kong, Madrid e Dubai, embora neste último caso o risco tenha diminuído desde março.

Na Europa, Zurique e Genebra continuam condicionadas pelos baixos custos de financiamento, que contribuem para aumentar os riscos. Em sentido contrário, Frankfurt e Amesterdão registaram as maiores descidas das pontuações de risco entre as cidades europeias.

Preços sobem cerca de 10% em Lisboa, Madrid e Seul

Apesar de, em termos agregados, os preços reais da habitação, as rendas e os rendimentos terem permanecido praticamente estáveis no conjunto das cidades analisadas, as diferenças entre mercados são significativas.

Lisboa, Seul, Madrid e Hong Kong registaram aumentos reais dos preços da habitação de cerca de 10% no último ano.

No extremo oposto, Vancouver e Toronto registaram quedas de aproximadamente 10%. Frankfurt e Munique também apresentaram descidas, embora menos acentuadas.

A evolução dos preços ocorre num contexto em que os custos de financiamento continuam elevados. Para Matthias Holzhey, economista do Chief Investment Office da UBS Global Wealth Management e autor principal do estudo, a manutenção de custos de financiamento elevados deverá limitar a valorização dos preços residenciais no curto prazo.

Comprar casa já custa mais de 40% do rendimento em muitas cidades

O estudo coloca também em evidência a dimensão do problema da acessibilidade.

Na maioria das cidades analisadas, o custo anual de uma habitação própria de 60 m², incluindo juros do crédito à habitação e despesas de manutenção, representa mais de 40% do rendimento bruto de um profissional altamente qualificado.

A pressão é particularmente evidente quando comparados os custos de comprar e arrendar. Segundo a UBS, em cidades como Munique, Hong Kong e Sydney, o custo de uma habitação própria é atualmente substancialmente superior ao do arrendamento.

O cenário ajuda a explicar por que razão a subida dos preços não se traduz necessariamente num mercado residencial equilibrado. A valorização dos ativos ocorre em paralelo com uma crescente dificuldade de acesso à habitação.

Imobiliário nem sempre protegeu da inflação

O estudo analisa ainda o comportamento do imobiliário durante os últimos cinco anos e conclui que, em mais de metade das cidades, a habitação não conseguiu proporcionar proteção contra a inflação.

Os mercados classificados como de elevado risco de bolha em 2021 registaram posteriormente as maiores correções, com uma queda média dos preços de cerca de 15% desde então.

Também a intensidade da inflação teve impacto. As cidades onde a inflação ficou acima da média registaram uma descida média de aproximadamente 5% nos preços reais das habitações. Já nos mercados com inflação inferior à média, os preços reais cresceram, em média, cerca de 10% por ano durante o mesmo período.

Falta de oferta mantém pressão sobre o mercado

Apesar dos ajustamentos registados em algumas cidades, a UBS considera que a procura por habitação urbana continua robusta.

Um dos indicadores dessa procura é a evolução das rendas, que, nos últimos cinco anos, acompanharam geralmente o crescimento dos rendimentos e, em muitos casos, chegaram a ultrapassá-lo.

Para Maciej Skoczek, economista do Chief Investment Office da UBS Global Wealth Management e autor do estudo, as avaliações atuais permitem ainda perspetivar que o imobiliário residencial possa funcionar como proteção contra a inflação a médio prazo.

A persistência das limitações do lado da oferta é apontada como um dos fatores que sustentam esta perspetiva.

Para Lisboa, a entrada no índice da UBS coloca assim dois fenómenos em evidência: por um lado, a forte valorização acumulada do mercado residencial e o aumento do risco de desequilíbrios; por outro, uma procura urbana que permanece elevada num contexto de oferta limitada.

O desafio para os próximos anos será, segundo o retrato traçado pelo estudo, conciliar a atratividade crescente da capital portuguesa para o investimento com a capacidade de garantir habitação acessível para quem vive e trabalha na cidade.