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IA muda o imobiliário, mas negociação, experiência e pensamento crítico continuam a ser o verdadeiro diferencial

 

IA muda o imobiliário, mas negociação, experiência e pensamento crítico continuam a ser o verdadeiro diferencial

10 de julho de 2026

Especialistas defendem que a inteligência artificial irá transformar profundamente o sector, mas alertam: o futuro pertence aos profissionais que aliarem tecnologia, conhecimento e competências humanas

A inteligência artificial está a transformar rapidamente o sector imobiliário e promete alterar profundamente a forma como se constroem, promovem, comercializam e gerem activos imobiliários. No entanto, por mais sofisticadas que sejam as novas ferramentas tecnológicas, há competências que continuarão fora do alcance das máquinas: negociar, interpretar contextos complexos, tomar decisões estratégicas e criar relações de confiança.

Esta foi uma das principais conclusões da conferência "No Filters – Formar para Construir o Futuro: Competências e Inovação no Sector Imobiliário", realizada na ESAI – Escola Superior de Actividades Imobiliárias, em Lisboa, organizada pelo Diário Imobiliário, que reuniu especialistas de diferentes áreas do mercado para debater o impacto da inteligência artificial e os novos desafios da qualificação profissional.



Num momento em que o sector enfrenta profundas mudanças provocadas pela digitalização, pela inteligência artificial, pela sustentabilidade, pela escassez de talento e pela crescente exigência dos consumidores, os participantes defenderam que o verdadeiro desafio já não passa por saber se a IA fará parte do imobiliário, mas sim por preparar os profissionais para trabalharem lado a lado com essa tecnologia.

Ao longo do debate, ficou claro que a inteligência artificial poderá automatizar tarefas repetitivas, apoiar análises, acelerar processos e aumentar a produtividade. Porém, a diferenciação continuará a depender da capacidade humana de analisar criticamente, interpretar informação, negociar, criar empatia e resolver problemas complexos.

Para Bruno Coelho, professor na ESAI e administrador imobiliário no Dr. Finanças, a formação será um dos principais factores de diferenciação no mercado. "Enquanto a formação nesta área não for obrigatória, quem a fizer ou já possuir esse conhecimento irá diferenciar-se dos restantes profissionais. Não podemos ter receio destas novas tecnologias, porque quem tiver receio corre o risco de ficar para trás."




Também Ricardo Sousa, CEO da Century 21 Portugal, considera que esta transformação já é transversal a toda a actividade imobiliária. "Todos nós, nas diferentes áreas do sector imobiliário, estamos a enfrentar um desafio comum: a tecnologia." Apesar disso, vários participantes alertaram que o sector continua a evoluir a um ritmo inferior ao da inovação tecnológica.

Para André Casaca, consultor e promotor imobiliário na LaPlace Real Estate Intelligence, essa diferença começa a tornar-se evidente. "A tecnologia avança a um ritmo mais rápido do que o sector, que continua muitas vezes preso às mesmas discussões. Quando surgem picos de procura, faltam capacidade e recursos humanos para responder em tempo útil. A formação é, por isso, um pilar essencial, mas a evolução do imobiliário dependerá também de uma cultura mais agregada e menos individualizada."

Um dos temas que gerou maior reflexão foi o impacto da inteligência artificial na formação das futuras gerações de profissionais.

Segundo Bruno Matos, engenheiro civil e especialista em Direcção e Gestão da Construção, a automatização das tarefas de entrada pode criar um novo desafio para as empresas.

"A inteligência artificial permite automatizar rotinas e tarefas operacionais, assim como apoiar o planeamento e a elaboração de relatórios. No entanto, coloca-se outra questão: poderá estar a retirar às empresas alguns dos perfis de entrada, sobretudo os mais jovens. Como serão estes profissionais formados? Como poderão tornar-se os futuros seniores do nosso sector? É essencial garantir que a formação e a transmissão de conhecimento continuam a existir."



A evolução tecnológica levanta igualmente novos desafios no plano jurídico.

Para Madalena Azeredo Perdigão, sócia da CCA Law, a facilidade de acesso à informação exige uma análise cada vez mais crítica. "O papel do advogado está a mudar e a inteligência artificial está também a redefinir aquilo que constitui a mais-valia de um advogado. Surgem cada vez mais pessoas que chegam ao escritório depois de terem analisado previamente os seus casos através de ferramentas de inteligência artificial. Contudo, nem toda a informação apresentada está correcta. Existem ainda muitos erros, incluindo situações que são ilegais e que estas ferramentas indicam não o serem."

Também o comportamento dos consumidores está a mudar. Segundo Mariana Morgado Pedroso, arquitecta e CEO da Architect Your Home, os compradores portugueses estão hoje mais informados e mais exigentes. "Temos cada vez mais pedidos de inspecções técnicas antes da compra de um imóvel. Anteriormente, este tipo de serviço era solicitado sobretudo por clientes estrangeiros, mas hoje recebemos cada vez mais pedidos por parte de clientes portugueses. É uma mudança clara no comportamento dos consumidores."

Apesar da rápida evolução tecnológica, os especialistas foram unânimes em afirmar que existem competências que continuarão a distinguir os profissionais. Como sublinhou João Sousa, CEO da JPS Group: "A inteligência artificial poderá substituir ou apoiar muitas tarefas, mas nunca substituirá o ser humano na negociação e no fecho de um negócio."




Moderado por Fernanda Pedro, diretora-geral do Diário Imobiliário, o painel reuniu representantes da mediação imobiliária, construção, arquitectura, direito, promoção imobiliária e academia, proporcionando uma visão transversal sobre o futuro do sector. A conferência concluiu que a inteligência artificial não elimina a necessidade de profissionais qualificados. Pelo contrário, aumenta a importância da formação contínua, do pensamento crítico, da capacidade de adaptação, da comunicação e da colaboração entre empresas, academia e mercado, factores considerados essenciais para preparar o sector imobiliário para a próxima década.

Integrada no conceito NO FILTERS, by the NEW GENERATION Real Estate 5.0, um grupo formado quase há uma década pelo Diário Imobiliário, a iniciativa afirmou-se como um espaço de reflexão sobre os grandes temas que irão marcar o futuro do imobiliário, reforçando a ideia de que a tecnologia será uma poderosa aliada, mas que continuará a ser o talento humano a criar verdadeiro valor.