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BLEPO: colocar arquitetos e engenheiros do lado de quem compra casa
O mercado imobiliário português continua a viver um dos momentos mais intensos dos últimos anos, com transações mais numerosas, mais rápidas e a preços cada vez mais elevados. Ao mesmo tempo, o país tem enfrentado episódios meteorológicos extremos, com cheias, chuva forte e trovoada, sinais de um padrão climático cada vez menos previsível. Foi este cruzamento de fatores que levou o arquiteto João Luís Carvalho e o engenheiro civil João Cunha a criar a BLEPO, empresa portuguesa que quer democratizar o acesso ao diagnóstico técnico de imóveis antes da compra.
A origem da ideia
Os dois fundadores trabalharam juntos durante 12 anos na Melom, conhecendo o setor imobiliário por dentro. A ideia para a BLEPO ganhou forma quando João Luís Carvalho começou também a investir em imóveis e encontrou repetidamente problemas não percetíveis numa visita normal: patologias escondidas, questões nas partes comuns, obras inesperadas e situações que só surgiam depois de fechado o negócio.
"Se até alguém com experiência no setor tinha dificuldade em identificar todos os riscos de um imóvel, o problema seria ainda maior para quem não tem formação técnica", refere João Carvalho. Foi essa constatação que deu origem à pergunta central por detrás da BLEPO: porque não existe uma forma simples de colocar um arquiteto ou engenheiro do lado de quem compra?
Democratizar a due diligence imobiliária
Os serviços de due diligence imobiliária já existem, mas estão tradicionalmente associados a investidores profissionais, fundos e bancos, com uma abordagem altamente técnica. João Luís Carvalho e João Cunha quiseram tornar essa lógica acessível ao consumidor comum, transformando a informação técnica numa camada simples, padronizada e compreensível, com diferentes níveis de diagnóstico. O objetivo não é transformar o comprador num especialista, mas dar-lhe informação suficiente para perceber o que está a adquirir e quais os riscos envolvidos.
O risco climático como nova pergunta
Para os fundadores, o problema deixou de se resumir a identificar infiltrações ou fissuras. Num contexto de alterações climáticas e de fenómenos meteorológicos cada vez mais extremos — como as tempestades que atingiram Portugal no início de 2026 —, torna-se também necessário perceber o risco associado ao edifício e à sua localização. Segundo a BLEPO, a pergunta que deveria acompanhar qualquer decisão imobiliária é simples: qual é o risco desta casa, seja ambiental, do edifício, da fração ou do próprio local onde está inserida?
João Cunha defende que uma inspeção técnica antes de comprar casa deveria tornar-se tão natural como pedir uma avaliação bancária, alertando que a informação deve chegar ao comprador "antes da escritura, e não depois da primeira infiltração, da primeira obra inesperada ou da próxima tempestade".
O modelo de negócio
A BLEPO disponibiliza atualmente cinco tipos de diagnóstico, com diferentes níveis de profundidade. Na fase beta, o produto de referência — a Inspeção Técnica — custa 600 euros, cerca de 0,25% do valor médio de uma transação imobiliária, permitindo identificar problemas que podem representar milhares ou dezenas de milhares de euros em custos futuros.
A empresa desenvolveu uma plataforma que estrutura e padroniza o trabalho de inspeção através de um workflow assente em inteligência artificial, permitindo replicar a metodologia através de uma rede de arquitetos e engenheiros independentes afiliados.
Expansão prevista
A BLEPO opera atualmente na Grande Lisboa, com capacidade para cerca de 500 inspeções por mês. O plano da empresa prevê expansão para o Porto, cobertura nacional num horizonte de 24 meses e entrada numa primeira cidade espanhola no início do terceiro ano de atividade, com uma meta de 5 milhões de euros de faturação em três anos.
Uma mudança de comportamento
Segundo os fundadores, o objetivo vai além de criar um novo serviço imobiliário: pretendem "mudar a relação de poder e de informação numa das maiores decisões financeiras das famílias", nas palavras de João Carvalho. A BLEPO não vende casas, não faz mediação nem decide pelo comprador — observa, analisa e documenta o imóvel para que a decisão seja tomada com mais informação. Como resume João Cunha, "uma casa bonita não é necessariamente uma casa segura. E olhar não chega. É preciso ver melhor para decidir melhor".
O nome BLEPO tem origem no grego e significa "ver melhor", resumindo a missão da empresa: tornar a informação técnica sobre imóveis mais simples, acessível e útil para quem compra, vende ou arrenda casa.

















