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Teatro Nacional D. Maria II ©Pedro Macedo

Teatro Nacional D. Maria II ©Pedro Macedo

Teatro Nacional D. Maria II renova-se sem perder a identidade histórica

21 de outubro de 2026

O Teatro Nacional D. Maria II regressou à sua histórica morada no Rossio, em Lisboa, após uma profunda intervenção de requalificação, restauro e modernização realizada no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). A obra representa a maior intervenção no edifício desde a reconstrução que terminou em 1978, na sequência do incêndio de 1964, e teve como objetivo preservar o seu valor arquitetónico e patrimonial, ao mesmo tempo que atualizou as condições necessárias ao funcionamento de uma instituição cultural contemporânea.

O projeto procurou responder a um desafio central: modernizar um monumento nacional sem comprometer a sua identidade. Para Francisco Pólvora, arquiteto responsável pelo projeto, a complexidade resultou, desde logo, da natureza parcial da intervenção. Embora incidisse apenas sobre determinadas zonas do edifício, era necessário assegurar uma leitura coerente do conjunto e articular as diferentes fases da sua história.

"A intervenção era parcial, mas, dado o valor patrimonial e simbólico do edifício, deveria ter uma leitura unitária, cerzir os vários 'momentos' daquela estrutura", explica o arquiteto. O objetivo passou por melhorar o desempenho do Teatro e corrigir elementos dissonantes, estabelecendo uma relação de continuidade com o existente, em vez de introduzir ruturas na leitura arquitetónica.



Teatro Nacional D. Maria II ©Pedro Macedo

Conhecer a história antes de intervir

A estratégia de reabilitação começou pelo estudo aprofundado do edifício, através de inspeções visuais, sondagens estruturais e parietais, ensaios acústicos, análises de cor e levantamentos métricos por rastreamento laser. A investigação foi complementada com a consulta de projetos anteriores, registos fotográficos, desenhos e outras fontes documentais.

Este trabalho permitiu identificar e hierarquizar os elementos com maior significado cultural, criando uma base para decidir o que deveria ser preservado, recuperado ou transformado. Segundo Francisco Pólvora, o princípio orientador foi claro: num edifício com este valor patrimonial, é o programa que deve adaptar-se ao existente, e não o contrário.



Teatro Nacional D. Maria II ©Pedro Macedo

Entre os elementos considerados essenciais estão os componentes do edifício original concebido pelo arquiteto Fortunato Lodi, bem como soluções arquitetónicas de intervenções posteriores, nomeadamente as dos arquitetos Rebelo de Andrade e Gonçalo Byrne, que passaram a integrar a identidade do Teatro.

"A nova intervenção, além de os manter e recuperar, corrige algumas situações que, por serem dissonantes, dificultavam a sua leitura", refere Francisco Pólvora. A proposta procurou, assim, introduzir uma linguagem contemporânea capaz de dialogar com as diferentes camadas históricas do edifício, sem desvalorizar a sua evolução arquitetónica.

A coordenação foi outro dos grandes desafios. O projeto envolveu mais de 20 especialidades, desde arquitetura, conservação e restauro, estruturas e acessibilidades até climatização, instalações elétricas, acústica, segurança contra incêndios, iluminação, sinalética e design de mobiliário e equipamentos.



Teatro Nacional D. Maria II ©Pedro Macedo

Mais conforto, segurança e eficiência energética

A requalificação abrangeu várias áreas do Teatro, com intervenções destinadas a melhorar a experiência do público e as condições de funcionamento da instituição. Entre os trabalhos realizados encontram-se a limpeza e recuperação das fachadas, a instalação de iluminação monumental com tecnologia LED e a aplicação de letras metálicas em cobre para identificação exterior do edifício.

No interior, o átrio foi reformulado para facilitar a entrada e a circulação, estando também prevista a renovação da bilheteira e da livraria. A Sala Garrett recebeu melhorias nas infraestruturas técnicas de iluminação e som, bem como trabalhos de pintura e substituição de tecidos e alcatifas. Foi ainda renovado o sistema de palco rotativo e o quadro da mecânica de cena, com uma dotação orçamental adicional atribuída em maio de 2025.



Teatro Nacional D. Maria II ©Pedro Macedo

A intervenção incluiu igualmente a instalação de novos equipamentos de segurança contra incêndios, a reorganização dos espaços técnicos e das oficinas e a criação de áreas para armazenamento de equipamentos, adereços e figurinos. A zona da Biblioteca e Arquivo foi também abrangida por melhorias destinadas a favorecer a preservação do acervo histórico.

Outro dos objetivos foi atualizar as condições de trabalho. Os serviços do Teatro, anteriormente dispersos por diferentes áreas do edifício, foram concentrados num único espaço, na antiga Sala de Cenografia, por cima da Sala Garrett. A reorganização permite melhorar as condições de iluminação, ventilação, climatização e conforto acústico, promovendo simultaneamente uma maior articulação entre equipas.

Foi ainda criada uma nova sala polivalente de apoio à Sala Estúdio, destinada a ensaios, formação e outras atividades. A instalação de novos sistemas de climatização na Sala Garrett, no Salão Nobre e no átrio visa, por sua vez, aumentar a eficiência energética.



Teatro Nacional D. Maria II ©Pedro Macedo

Integrar o novo sem apagar o existente

A abordagem arquitetónica variou em função do valor patrimonial e das características de cada espaço. Nas zonas mais sensíveis, a intenção foi tornar as novas soluções tão discretas quanto possível. Nos locais menos condicionados pelas estruturas e acabamentos existentes, houve maior margem para introduzir elementos contemporâneos, mantendo uma relação de continuidade com a arquitetura histórica.

"Quando se está perante elementos de maior valor patrimonial, que chegaram até nós em bom estado de conservação, as possibilidades de transformação são menores", explica Francisco Pólvora. Em contrapartida, os espaços menos qualificados ou profundamente alterados ao longo do tempo permitiram uma intervenção mais ampla.



Teatro Nacional D. Maria II ©Pedro Macedo

A antiga Sala de Cenografia constitui um exemplo desta abordagem. O espaço, correspondente à zona do antigo sótão, foi totalmente renovado para acolher novas áreas de trabalho, organizadas em torno de um jardim de inverno. Em contraste, na Sala Garrett, a transformação é menos visível, apesar das melhorias significativas nos sistemas de iluminação cénica, som, ventilação e climatização.

Para o arquiteto, a atualização tecnológica é indispensável à continuidade de um teatro enquanto espaço de criação e representação. A componente cénica exige equipamentos e mecanismos em permanente adaptação, capazes de responder à evolução das linguagens artísticas e às necessidades técnicas das produções.



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Uma nova relação com o Rossio

A intervenção procurou também reforçar a relação do Teatro com a Praça do Rossio e com a cidade de Lisboa. A recuperação das fachadas, a correção de elementos dissonantes na cobertura e a nova iluminação monumental contribuem para valorizar a presença do edifício no conjunto urbano.

Uma das preocupações passou por recuperar a leitura arquitetónica inicialmente proposta por Fortunato Lodi, que concebeu um edifício simétrico, destinado a marcar a praça sem revelar imediatamente a organização do espaço interior. A abertura de vãos anteriormente encerrados pelo interior permite melhorar a relação entre o Teatro e o espaço público, tornando o edifício mais permeável à cidade.



Teatro Nacional D. Maria II ©Pedro Macedo

Também a nova identificação exterior, desenvolvida pelo designer Pedro Falcão, procura integrar-se na arquitetura. As letras em cobre são fixadas diretamente na fachada, recuperando uma intenção presente nos desenhos iniciais de Lodi, nos quais a identificação do Teatro surgia na base do frontão voltado para o Rossio.

"Estamos a dar uma 'nova vida' ao Teatro Nacional D. Maria II, garantindo muitos mais anos de bom funcionamento a um equipamento central na vida cultural de Portugal e de Lisboa", sublinha Francisco Pólvora.



Teatro Nacional D. Maria II ©Pedro Macedo

O regresso ao Rossio em setembro de 2026

Durante o encerramento do edifício histórico, o Teatro Nacional D. Maria II alargou a sua programação a todas as regiões do país, reforçando o seu papel na coesão territorial através da cultura. A atividade incluiu espetáculos, projetos de participação, iniciativas dirigidas ao público escolar, debates, lançamentos de livros, ações de formação e exposições.

Em 2026, a instituição manteve a programação cultural em diferentes pontos do país e em Lisboa, tendo o regresso ao edifício do Rossio sido anunciado para 18 de setembro.



Teatro Nacional D. Maria II ©Pedro Macedo

A requalificação procura, assim, assegurar a continuidade de um dos principais equipamentos culturais portugueses, conciliando a preservação da memória arquitetónica com as exigências de segurança, acessibilidade, conforto e desempenho técnico. Mais do que recuperar um edifício histórico, o projeto pretende garantir que o Teatro Nacional D. Maria II continua preparado para acolher novas formas de criação e de relação com o público, sem perder os elementos que definem a sua identidade.