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Há uma ferramenta portuguesa capaz de identificar os melhores locais para instalação de data centers de grande escala
O INESC TEC desenvolveu e validou uma ferramenta que identifica onde a rede nacional de transporte pode ligar, de forma segura, novos clusters de data centers de grande dimensão, ou seja, entre 500 MW e 1 GW.
Trata-se de um projecto que vai ao encontro das necessidades de Portugal,que está a afirmar-se como um destino cada vez mais atrativo para a instalação de data centers de grande escala e infraestruturas de Inteligência Artificial (IA), mas há um factor decisivo que condiciona estes investimentos: a capacidade e fiabilidade da rede eléctrica.
Numa altura em que o país sido afectado por tempestades recorrentes, que deixaram mais de meio milhão de pessoas com dificuldades no acesso à electricidade em várias regiões do país, a robustez e fiabilidade da rede elétrica voltam a estar no centro do debate público e este tipo de solução ganham ainda maior relevância.
Impulsionado pela disponibilidade de energias renováveis, pela localização estratégica e pelas interligações europeias, Portugal pode acolher a próxima vaga de data centers e infraestruturas de computação de alto desempenho para IA na Europa. No entanto, é a capacidade rede elétrica que decide se estes projetos avançam ou ficam pelo caminho. “Com esta ferramenta validada, conseguimos indicar, de forma clara e defensável, onde a rede de transporte suporta centenas de megawatts hoje e onde estará preparada até 2030”, refere João Peças Lopes, director e investigador do INESC TEC.
Mas, afinal, em que consiste esta solução e porque é diferente das abordagens tradicionais? Ao contrário de outros estudos, frequentemente baseados apenas em estimativas genéricas ou teóricas de capacidade, a ferramenta desenvolvida pelo INESC TEC, analisa - de forma sistemática - toda a rede nacional de transporte, classificando subestações segundo a sua capacidade real de acolhimento de grandes cargas elétricas. A metodologia combina uma triagem rápida com simulações detalhadas alinhadas com os critérios técnicos do operador da rede de transporte, incluindo cenários de falha. A esta análise junta-se um segundo elemento-chave: um modelo avançado de geração de perfis de consumo de energia elétrica associados a data centers e de infraestruturas computacionais de IA,. Isto é essencial porque o impacto deste tipo de infraestruturas na rede não depende apenas da potência máxima instalada, mas de como a energia é consumida hora a hora.
“Encontrar o local certo para um data center de 500 MW não depende apenas do tamanho de um transformador. Depende do comportamento da rede em horas críticas e até em situações de falha. A nossa metodologia testa essas realidades, traduzindo-as numa lista viável de opções de ligação”, explica Ricardo Bessa, investigador do INESC TEC, onde é responsável pelo domínio de sistemas de energia.
Ao reduzir a incerteza, esta solução vai permitir acelerar decisões de investimento e proteger a segurança do sistema eléctrico nacional, numa altura em que muitos projetos enfrentam atrasos ou riscos elevados devido à incerteza sobre o acesso à rede elétrica. Os investidores em infraestruturas digitais e de IA passam, assim, a dispor de informação clara sobre onde construir, com que potência e em que horizonte temporal e os operadores de rede beneficiam de uma visão estratégica sobre onde a nova procura é viável e onde os reforços devem ser priorizados.
“Esta ferramenta vai permitir analisar rapidamente toda a rede de transporte e depois confirmar, com simulações completas, onde a ligação é realmente segura. Não fazemos suposições, demonstramos. Ao integrar perfis de consumo realistas, os resultados reflectem muito melhor o comportamento verdadeiro dos data center”, sublinha Ignacio Hernando Gil, investigador do INESC TEC e responsável pelo desenvolvimento da ferramenta.
A metodologia do INESC TEC já foi aplicada em projetos reais de consultoria sobre a rede elétrica portuguesa, por exemplo para identificar a capacidade de ligação de grandes eletrolisadores para hidrogénio verde, e está agora a ser adaptada e aprofundada para responder especificamente às necessidades de data centers de grande escala, em colaboração com vários parceiros industriais.













