
Edfício Transparente
Decidir demolir o Edifício Transparente no Porto é “atitude 'trumpiana'” - arquitecto Carlos Prata
O arquitecto Carlos Prata, responsável pela requalificação do Edifício Transparente, acusou hoje a Câmara do Porto, a Agência Portuguesa do Ambiente e o Ministério do Ambiente de ter “uma atitude ‘trumpiana’” ao decidir demolir parte do imóvel.
“Encaram aquilo como um extraterrestre que pousou ali e que é preciso destruir. É uma atitude tipo ‘trumpiana’. Ali é um obstáculo, vamos desfazer. E eu acho que não deveria ser assim”, afirmou hoje à Lusa Carlos Prata, que lamentou que não tenha sido promovida uma discussão entre diferentes partes para que esta “decisão política” fosse mais informada.
Para o arquitecto, que em 2003 foi contratado pelo concessionário daquele imóvel para elaborar um projecto de reconversão, é “de uma ignorância completa” dizer que aquele espaço não tem sentido, porque ignora que este foi projectado para “ser um espaço de pausa” que ajudasse a criar uma continuidade entre o Parque da Cidade e o mar.
“Dizer que tudo melhora se demolirem o edifício parcialmente é a coisa mais absurda que há. Absurda do ponto de vista da arquitectura, porque não tem sentido pegar no edifício e cortar-lhe uma parte”, acrescentou.
Na terça-feira, a ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, revelou que o edifício seria parcialmente demolido, deixando apenas um piso ao nível da praia para servir de apoio à prática balnear, e classificou-o de “muito feio”.
Estas declarações mereceram a reprovação do arquitecto, que lamentou que os decisores políticos achem que “de médico, louco, arquitecto e engenheiro todos temos um pouco”, numa referência ao ditado popular, e relembrou que gostos todas as pessoas têm.
“É de um provincianismo atroz fazer esse tipo de considerações sobre aquele edifício. De facto, [é de] quem não conhece mais do que este mundo pequenininho em que nós vivemos…”, atirou.
O Edifício Transparente, já perto da Rotunda da Anémona, foi construído em 2001 no âmbito do projecto de extensão do Parque da Cidade até ao mar, da autoria do arquiteto catalão Solà-Morales, intervenção financiada pelo programa Polis e integrada no plano de obras da empresa promotora do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura.
Este foi um dos projectos mais polémicos da Porto 2001, já que, após a sua conclusão, ninguém sabia qual seria a sua finalidade.
Depois de um longo período de indefinição sobre o uso a dar ao imóvel, a administração da Casa da Música, que em Julho de 2002 sucedeu à Porto 2001, lançou um concurso de ideias que culminou na assinatura de um contrato de concessão com a Hottrade - Representações de Equipamentos de Aquecimento.
Em Dezembro de 2003, a Hottrade anunciou um projecto, a cargo do arquitecto Carlos Prata, que previa o fecho a vidro em toda a volta do edifício, para que pudesse ser utilizado também no inverno, com restaurantes, bares, discoteca, centro de negócios e galeria de arte.
Em vigor desde 2021, o Programa da Orla Costeira Caminha - Espinho (POC-CE) identifica 46 áreas críticas e determina o recuo de dezenas de núcleos habitacionais, bem como a protecção da praia Internacional no Porto, junto ao Edifício Transparente, cuja demolição está prevista até 2028.
Na quarta-feira, o presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte (PSD/CDS-PP/IL), mostrou disponibilidade para ajudar os empresários do Edifício Transparente a encontrar espaços alternativos, considerando que a demolição parcial do imóvel é uma "grande notícia" para a cidade e rejeitando que este processo tenha sido feito “às escondidas” das empresas que funcionam nos pisos superiores do imóvel.
O autarca espera que a demolição avance em 2027, mas não especificou os custos desta operação, já que o projeto ainda não está elaborado.
LUSA/DI
















