
Crise da construção terá destruído 260 mil empregos e deixado marcas na atual falta de habitação
Entre 2011 e 2015, Portugal perdeu mais de 20 mil empresas de construção em termos líquidos. A quebra do investimento, o desemprego e a emigração de profissionais contribuíram para debilitar um setor cuja recuperação continua a condicionar a oferta habitacional.
A escassez de habitação em Portugal tem parte das suas raízes na profunda crise que atingiu a construção durante a primeira metade da década passada. A austeridade, a redução do investimento público e privado e as restrições ao crédito agravaram uma contração iniciada já antes da chegada da troika, provocando o encerramento de milhares de empresas, a destruição de emprego e a saída de profissionais qualificados para o estrangeiro.
Em fevereiro de 2016, o presidente da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN), Reis Campos, fazia um balanço severo: em cinco anos, o setor tinha perdido cerca de 260 mil empregos e 39 mil empresas, segundo as estimativas da associação.
Os dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística (INE), reproduzidos pelo Instituto dos Mercados Públicos, do Imobiliário e da Construção (IMPIC), apontam para uma redução líquida de 20.074 empresas de construção entre 2011 e 2015, passando de 97.980 para 77.906, menos 20,5%.
Passos Coelho admitia “perda estrutural” de importância do setor
Em março de 2015, o então primeiro-ministro Pedro Passos Coelho considerava que a construção civil e as obras públicas não recuperariam o peso que tinham tido na economia portuguesa.
Num discurso em Valongo, no dia 14, defendeu políticas de reconversão profissional para os trabalhadores desses setores.
A posição refletia uma mudança de orientação económica durante o período da assistência financeira internacional, marcada pela contenção do investimento público e pela prioridade atribuída à consolidação orçamental e aos setores exportadores.
O então ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira (hoje Governador do Banco de Portugal), também criticou o modelo de crescimento assente nas grandes infraestruturas e no investimento em construção, defendendo uma economia mais orientada para atividades produtivas e bens transacionáveis.
Estas posições incidiam sobretudo sobre o modelo de desenvolvimento económico e as obras públicas e não não tanto sobre a construção habitacional. Coincidiram, no entanto, com um período de forte contração da atividade, durante o qual as associações empresariais alertaram repetidamente para o risco de perda irreversível de capacidade produtiva.
Logo em 2011, a Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário (CPCI) criticou a importância atribuída ao setor no programa do novo Governo, manifestando preocupação com a extinção do Ministério das Obras Públicas e a redução da autonomia parlamentar dedicada à área.
Mais de 110 mil desempregados e 150 mil emigrantes
O impacto social da crise foi expressivo.
Em janeiro de 2013, estavam inscritos nos centros de emprego 110.522 desempregados provenientes da construção, segundo dados do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), divulgados pela Federação Portuguesa da Indústria da Construção e Obras Públicas (FEPICOP).
O número representava um aumento de 20.090 desempregados face ao mesmo mês do ano anterior.
No primeiro trimestre de 2013, a construção empregava apenas 313,1 mil trabalhadores, menos 74 mil do que um ano antes, segundo a FEPICOP.
A destruição de emprego foi acompanhada por uma forte saída de profissionais para o estrangeiro.
Em março de 2015, o então presidente do Sindicato da Construção de Portugal, Albano Ribeiro, estimava que 150 mil trabalhadores do setor tinham emigrado nos três anos anteriores, sobretudo para países europeus, mas também para Angola, Moçambique e Canadá.
O dirigente sindical alertava igualmente para os riscos enfrentados por trabalhadores recrutados para o estrangeiro, incluindo situações de exploração e falsas promessas de emprego.
Trata-se de uma estimativa sindical, não de uma contagem oficial de emigrantes por profissão. Ainda assim, constitui um testemunho contemporâneo da dimensão que a saída de mão de obra assumiu durante a crise.
A perda de profissionais atingiu diferentes especialidades, desde operários e encarregados de obra até técnicos e engenheiros, reduzindo a disponibilidade de competências necessárias à execução de novos projetos.
Empresas desapareceram e investimento público caiu
A crise atingiu também a capacidade de investimento e de execução das empresas.
Em 2015, o valor dos concursos de obras públicas promovidos em Portugal situou-se em 1.237 milhões de euros, contra 2.730 milhões em 2011, segundo dados divulgados pela AICCOPN.
Os contratos celebrados em 2015 totalizaram 1.120 milhões de euros, menos 35% do que em 2014.
A AICCOPN classificou 2015 como o pior ano para as obras públicas desde a entrada da troika, alertando para a insuficiência do investimento público e para as dificuldades de recuperação do setor.
A retração do financiamento agravou os problemas das empresas. Em março de 2013, o crédito bancário concedido à construção ascendia a 19,5 mil milhões de euros, menos três mil milhões do que um ano antes, uma quebra de 14%, segundo a FEPICOP.
A redução das encomendas e do financiamento contribuiu para o encerramento de empresas e para a dispersão de equipas especializadas, cuja reconstrução se revelou difícil quando a atividade começou a recuperar.
Construção de habitação caiu para mínimos históricos
A contração do setor teve reflexos diretos na produção de novas casas.
Em 2011, Portugal concluiu 26.382 fogos em construções novas para habitação familiar. Em 2015, esse número tinha diminuído para 7.148, uma quebra próxima de 73%.
A recuperação foi lenta. Em 2016, concluíram-se apenas 7.909 novas habitações e, em 2017, 8.213. Só nos anos seguintes a construção habitacional começou a recuperar de forma mais consistente.
Em 2025, foram concluídas 27.301 novas habitações, segundo os dados do INE disponibilizados pela Pordata, um valor ainda muito inferior às mais de 125 mil unidades registadas no máximo histórico de 2002.
A evolução mostra que Portugal atravessou um longo período de produção habitacional reduzida, precisamente quando se acumulavam necessidades de renovação do parque residencial e, posteriormente, novas pressões sobre a procura, nomeadamente com a entradas de centenas de imigrantes.
Falta de trabalhadores tornou-se obstáculo à recuperação
A perda de mão de obra continuou a ser identificada como um problema vários anos depois da saída da troika.
Em 2019, Reis Campos alertava para a falta de 70 mil a 80 mil trabalhadores no setor, numa altura em que o investimento imobiliário já dava sinais de recuperação.
No mesmo ano, Albano Ribeiro estimava que cerca de cem trabalhadores da construção saíam diariamente de Portugal para trabalhar noutros países europeus, atraídos por remunerações superiores.
Em 2021, o dirigente sindical apontava para cerca de 300 mil portugueses a trabalhar na construção no estrangeiro, incluindo, segundo outra estimativa sua, 16 mil engenheiros.
Estes números não devem ser interpretados como uma contagem oficial de trabalhadores emigrados entre 2011 e 2015. Refletem, porém, a persistência do problema na perspetiva das organizações do setor.
A escassez de trabalhadores especializados, a insuficiência da formação profissional e as dificuldades em competir com os salários praticados noutros países europeus passaram a condicionar a capacidade de resposta das empresas.
Uma crise com consequências prolongadas
A atual escassez de habitação não pode ser explicada exclusivamente pelas políticas adotadas entre 2011 e 2015.
A crise da construção começou antes da chegada de Passos Coelho ao Governo, num contexto de esgotamento do anterior ciclo imobiliário e de dificuldades financeiras agravadas pela crise internacional de 2008.
Durante o período da troika, contudo, a contenção do investimento, as restrições ao financiamento e a contração da procura aprofundaram a fragilidade empresarial e a destruição de emprego.
A perda de empresas e trabalhadores contribuiu para reduzir a capacidade produtiva do setor, dificultando a resposta quando a procura habitacional voltou a aumentar.
A estes efeitos juntaram-se outros constrangimentos: morosidade do licenciamento, custos de construção, dificuldades de acesso a terrenos, exigências regulamentares, disponibilidade de financiamento e insuficiência de investimento em habitação acessível.
Mais de uma década depois, os números mostram que a construção habitacional ainda não recuperou a escala de produção que chegou a atingir no início do século.
A crise atual da habitação tem, por isso, uma dimensão que ultrapassa a subida dos preços e a falta de casas disponíveis: resulta também de um prolongado enfraquecimento da capacidade de construir, num setor que perdeu empresas, trabalhadores e competências cuja recuperação exige tempo, investimento e vontade política.
Autor: António Baptista da Silva, (senior partner do Diário Imobiliário)
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