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Colecção de Arte Contemporânea do Estado ganha casa própria ao fim de 50 anos

Imagem gerada por IA

Colecção de Arte Contemporânea do Estado ganha casa própria ao fim de 50 anos

22 de junho de 2026

A Colecção de Arte Contemporânea do Estado (CACE) vai inaugurar, no próximo dia 1 de Julho, o seu primeiro espaço permanente de reservas visitáveis, um projecto que marca uma nova etapa na história da colecção pública criada em 1976. Instalado em Alcabideche, no concelho de Cascais, o novo CACE Centro permitirá reunir, pela primeira vez, uma parte substancial do acervo estatal de arte contemporânea num único edifício aberto ao público.

A abertura do equipamento concretiza uma decisão aprovada pelo Conselho de Ministros em Dezembro de 2025 e responde a uma reivindicação antiga de artistas, curadores e profissionais do sector, que há décadas apontavam a necessidade de dotar a colecção de uma estrutura própria para conservação, estudo e divulgação.

Segundo a directora e curadora da colecção, Sandra Vieira Jürgens, trata-se de um "marco histórico" para um acervo que, apesar da sua importância para a arte contemporânea portuguesa, passou grande parte da sua existência disperso por vários espaços e com reduzida visibilidade institucional.



«O Impostor», obra de Paula Rego adquirida pelo Estado em 2023



O novo centro está instalado num edifício anteriormente pertencente à Fundação Ellipse, ligada ao extinto Banco Privado Português (BPP), adquirido pelo Estado no âmbito do processo de insolvência da instituição. O imóvel foi alvo de obras de adaptação avaliadas em cerca de um milhão de euros.

Actualmente, a Colecção de Arte Contemporânea do Estado integra mais de 3.200 obras, das quais cerca de 1.300 ficarão concentradas no novo centro. As restantes permanecem distribuídas por depósitos e instituições parceiras, entre as quais a Fundação de Serralves, autarquias, organismos públicos, embaixadas e entidades culturais.



Reservas visitáveis e bastidores da gestão museológica

Ao contrário de um museu tradicional, o CACE Centro foi concebido para dar a conhecer ao público o trabalho desenvolvido nos bastidores da gestão de uma colecção de arte.

O espaço inclui reservas visitáveis, áreas de conservação, inventariação e catalogação, permitindo aos visitantes acompanhar processos normalmente inacessíveis ao público, como o embalamento, transporte, preparação de exposições e gestão de empréstimos de obras.



Sandra Vieira Jürgens - Foto CACE



"Queremos que as pessoas compreendam que uma colecção não é apenas aquilo que se vê numa exposição. Há todo um trabalho diário de conservação, estudo, investigação e circulação das obras que agora poderá ser conhecido de perto", sublinha Sandra Vieira Jürgens.

O equipamento dispõe ainda de uma sala central multifuncional destinada a actividades educativas, conferências e programação cultural, duas galerias para exposições temporárias e uma "black box" dedicada à apresentação de obras multimédia.

As visitas serão realizadas mediante marcação prévia e destinam-se tanto ao público em geral como a estudantes, investigadores e profissionais do sector cultural.



Poupança de 660 mil euros por ano

Quando anunciou a criação do CACE Centro, a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, destacou que a concentração das obras num único espaço permitirá reduzir significativamente os custos associados ao armazenamento da colecção.

Segundo o Governo, a medida representará uma poupança anual estimada em cerca de 660 mil euros, verba que será reinvestida na área da Cultura.

Além da racionalização de recursos, o novo centro foi concebido de acordo com padrões museológicos internacionais, reforçando as condições de segurança, conservação e controlo ambiental exigidas para a preservação do património artístico.



Exposição inaugural mostra aquisições dos últimos anos

A inauguração do CACE Centro será assinalada com a abertura da exposição "Dual Sim", dedicada às obras adquiridas para a colecção entre 2019 e 2025.

Com curadoria de Filipa Rocha Nunes e Sofia Montanha, a mostra reúne 23 obras de artistas contemporâneos portugueses e internacionais representados na colecção, abrangendo áreas como pintura, escultura, instalação e vídeo.

Entre os artistas presentes encontram-se Gabriel Abrantes, Leonor Antunes, Joana Escoval, Susanne S. D. Themlitz, Paulo Mendes, Sara Graça, Eugénia Mussa, Ana Cardoso, Belén Uriel e Von Calhau.

O programa inaugural inclui ainda uma parceria com a Companhia Nacional de Bailado e a apresentação de várias obras do acervo nas áreas centrais do edifício.





«O Bordel», pintura de Graça Morais adquirida pelo Estado em 2023.



Colecção continuará a circular pelo país e pelo estrangeiro

Apesar da criação de uma sede permanente, a direção da CACE garante que a missão da colecção continuará a passar pela circulação das obras em Portugal e no estrangeiro.

Desde 2023, o acervo esteve presente em 16 exposições, das quais 11 realizadas em território nacional e cinco em cidades internacionais como Madrid, Berlim, Roma e Xangai.

O calendário até 2028 prevê novas exposições em Sines, Açores, Viseu, Évora, Funchal, Beja, Caldas da Rainha e Paris, reforçando a estratégia de descentralização e internacionalização da colecção.

Criada em 1976 para representar e preservar a produção artística contemporânea portuguesa, a Colecção de Arte Contemporânea do Estado entrou numa nova fase a partir de 2017, com a definição de uma estratégia de valorização e gestão continuada. As aquisições de obras foram retomadas em 2019 e mantêm-se desde então através de um programa anual.

Passados quase 50 anos sobre a sua criação, a abertura do CACE Centro representa o primeiro espaço dedicado exclusivamente à conservação, estudo e divulgação deste património artístico público, reforçando a capacidade de resposta da colecção e a sua visibilidade junto dos cidadãos.