Logo Diário Imobiliário
CONSTRUÍMOS
NOTÍCIA
Brain PowerHaierJPS Group 2024Porta da Frente
Actualidade
Lisboa perdeu 37% dos alojamentos locais, mas casas continuam fora do mercado habitacional

 

Lisboa perdeu 37% dos alojamentos locais, mas casas continuam fora do mercado habitacional

9 de outubro de 2026

Lisboa tem atualmente 11.704 alojamentos locais (AL), menos 37% do que em 2025, mas a redução dos registos não se traduziu num regresso significativo dessas habitações ao mercado residencial. A conclusão consta da Radiografia do Alojamento Local em Lisboa 2023-2026, divulgada esta sexta-feira pela associação de moradores Vizinhos em Lisboa.

De acordo com a análise, a capital dispõe agora de 69.070 camas em alojamentos locais, menos 36% do que no ano passado. A associação considera, contudo, que esta quebra resulta sobretudo da limpeza de registos sem atividade, e não de uma conversão generalizada de alojamentos turísticos em habitação permanente.

O estudo cruza quatro extrações do Registo Nacional de Alojamento Local (RNAL) com os dados dos Censos 2021 do Instituto Nacional de Estatística (INE), procurando avaliar a evolução do setor e o seu impacto na disponibilidade de habitação na cidade.

Cancelamento de 6.765 registos explica quebra

No início de 2026, a Câmara Municipal de Lisboa cancelou 6.765 registos de alojamento local por falta do seguro de responsabilidade civil obrigatório, uma medida que abrangia cerca de 40% do total de registos existentes.

Segundo a associação, 81% dos alojamentos locais ativos foram registados entre 2015 e 2019. Desde 2023, entraram apenas 332 novos estabelecimentos, um dado que aponta para uma redução da dinâmica de criação de novas unidades.

Para a Vizinhos em Lisboa, estes números ajudam a explicar por que motivo a diminuição dos registos não corresponde necessariamente a um aumento da oferta habitacional. O cancelamento administrativo de uma licença não significa, por si só, que o imóvel tenha passado a estar disponível para venda ou arrendamento de longa duração.

Apenas uma pequena parte dos imóveis cancelados surgiu no mercado

Para avaliar o destino das habitações com registos cancelados, a associação analisou anúncios publicados na plataforma imobiliária Idealista.

Na freguesia de Santa Maria Maior, foi examinada uma amostra aleatória de edifícios com alojamentos locais cancelados. Apenas 11% apresentaram anúncios de venda ou arrendamento durante o último ano.

Na Ajuda, onde foram analisados todos os edifícios abrangidos pelo levantamento, a proporção de imóveis com anúncios situou-se entre 6% e 8%.

A associação destaca ainda que o número global de anúncios de habitação em Lisboa se mantém em níveis semelhantes aos registados há um ano, o que, na sua interpretação, demonstra que a redução do alojamento local não resultou numa entrada expressiva de novas casas no mercado residencial.

Estes resultados referem-se aos anúncios identificados no período analisado e não permitem determinar, por si só, o destino de todos os imóveis cujo registo de alojamento local foi cancelado.

Centro histórico continua a concentrar alojamento local

A radiografia identifica uma forte concentração de alojamentos turísticos no centro histórico da capital. As freguesias de Santa Maria Maior e Misericórdia apresentam mais camas de alojamento local do que residentes e, em conjunto com São Vicente e Santo António, concentram 61% dos AL existentes em Lisboa.

Em Santa Maria Maior, a associação contabiliza 69 alojamentos locais por cada 100 casas habitadas, um rácio muito superior à média da cidade, de cinco por cada 100 habitações habitadas.

Os dados evidenciam as diferenças territoriais na distribuição do alojamento local e reforçam o debate sobre a pressão turística nos bairros históricos, onde a oferta de alojamento de curta duração tem uma presença particularmente significativa.

Lisboa tem 48 mil casas vagas, segundo os Censos

A associação chama também a atenção para o número de habitações vagas identificadas pelos Censos 2021. Na altura, Lisboa tinha 48.018 casas nesta condição, cerca de quatro vezes o número atual de alojamentos locais, segundo a comparação apresentada no estudo.

De acordo com a Vizinhos em Lisboa, estas habitações poderiam acolher cerca de 105 mil pessoas, caso fossem mobilizadas para fins residenciais.

A associação defende, por isso, que a resposta à crise da habitação não deve centrar-se exclusivamente na regulação do alojamento local, devendo incluir medidas que promovam a utilização do parque habitacional devoluto.

Os dados dos Censos dizem respeito a 2021 e não permitem concluir que todas as casas então classificadas como vagas estejam atualmente disponíveis para habitação, uma vez que podem existir diferentes razões para a sua desocupação.

Associação alerta para alojamentos locais sem registo

A Vizinhos em Lisboa denuncia ainda indícios de alojamentos locais a funcionar sem registo válido. Num teste realizado através de pedidos de reserva, a associação verificou que pelo menos 4% dos alojamentos classificados como «cancelados» continuavam a aceitar hóspedes.

O resultado levanta questões sobre a fiscalização da atividade turística e sobre a eficácia dos mecanismos de controlo após o cancelamento dos registos. A dimensão do teste e a metodologia utilizada não são, contudo, detalhadas na informação divulgada, pelo que o resultado deverá ser interpretado no contexto do levantamento realizado.

Vizinhos em Lisboa pede manutenção das restrições e mais transparência

Perante os resultados, a associação propõe à Câmara Municipal de Lisboa que mantenha as medidas de contenção do alojamento local nas freguesias consideradas saturadas e acompanhe a expansão da atividade para outras zonas da cidade, nomeadamente Penha de França, Campo de Ourique e Alvalade.

A mobilização das habitações vazias para o mercado residencial é outra das prioridades defendidas pela organização.

A associação pede ainda a reposição de informação nos dados abertos do Turismo de Portugal, incluindo os endereços de correio eletrónico e os números de identificação fiscal (NIF) das empresas que exploram alojamentos locais, com o objetivo de reforçar a transparência e facilitar a fiscalização.

A radiografia conclui que a diminuição do número de registos de alojamento local não se traduziu, até ao momento analisado, numa recuperação proporcional da oferta habitacional. Para a associação, o desafio passa agora por garantir que a regulação do turismo é acompanhada por medidas capazes de colocar mais casas efetivamente disponíveis no mercado de habitação de Lisboa.

DI com LUSA

PUB
Podcast
PUB
PUB
MAP2026AYH ESAI
Arrendamento
Rendas no Porto recuam pela primeira vez desde 2021, mas preço das casas acelera para máximos históricos
8 de outubro de 2026