
Hidrogénio
HyCarb: a spin‑off da FEUP que promete hidrogénio mais barato que o combustível fóssil
Com tecnologia patenteada de clivagem catalítica de metano, a HyCarb oferece hidrogénio competitivo e carbono grafítico, afirmando‑se como uma solução disruptiva para a transição energética e made in Portugal.
A HyCarb é a mais recente spin‑off reconhecida pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), e apresenta uma solução tecnológica pioneira para a produção de hidrogénio limpo através de clivagem catalítica de metano a temperatura intermédia (IT‑CMS), um processo altamente eficiente que evita emissões directas de CO2 e gera simultaneamente carbono grafítico de elevado valor acrescentado.
Esta tecnologia disruptiva, agora transferida para o mercado, resulta de quase duas décadas de investigação avançada em engenharia química desenvolvida no Laboratório de Engenharia de Processos, Ambiente, Biotecnologia e Energia (LEPABE) da FEUP.
A tecnologia IT‑CMS representa um avanço significativo face aos processos convencionais de produção de hidrogénio. Ao operar em temperaturas intermédias e com catalisadores altamente estáveis, o processo permite a decomposição do metano em hidrogénio e carbono sólido, evitando a formação de CO2. Quando aplicado ao biometano, gera uma pegada carbónica negativa, contribuindo ativamente para a remoção de carbono da atmosfera. Esta abordagem posiciona a HyCarb na vanguarda das tecnologias de hidrogénio descarbonizado, num contexto global em que a competitividade económica e a sustentabilidade ambiental são determinantes.
Um dos elementos mais diferenciadores da solução é a capacidade de produzir carbono grafítico de elevada pureza e renovável, um material com aplicações industriais estratégicas e cujo valor de mercado pode ultrapassar os três euros por quilograma. A proporção de produção — cerca de 1 kg de hidrogénio para 3 kg de carbono — altera profundamente o modelo económico do processo, permitindo que o hidrogénio seja disponibilizado a custos inferiores aos combustíveis fósseis.
20 anos de investigação
Na equipa de fundadores da HyCarb está Adélio Mendes, professor catedrático do Departamento de Engenharia Química e Biológica (DEQB) da FEUP, para quem esta tecnologia “é única” porque “traz hidrogénio a um preço inferior ao fóssil, e esta é que é a grande revolução”.
“Sentimos que é a nossa responsabilidade, já que a tecnologia era extremamente promissora, trazê‑la para o mercado, e foi isso que nos levou à criação da HyCarb, cuja missão é fazer a clivagem do metano para produzir carbono e hidrogénio descarbonizado e, se possível, de forma competitiva, contribuir para a descarbonização da atmosfera”, acrescenta o docente que integra o Conselho Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (CNCTI).
A maturidade científica da tecnologia foi consolidada no âmbito do projecto europeu 112CO2, financiado pelo programa FET Proactive e posteriormente integrado no European Innovation Council (EIC) como projeto Pathfinder, um reconhecimento reservado a iniciativas com elevado potencial de transformação industrial. Surgiu então a vontade de progredir para níveis de maturidade tecnológica (TRLs) mais elevados, subindo a escada do programa EIC, neste caso EIC – Transition, com o projecto europeu ZeroCarb, aprovado em 2025. Foi assim que a HyCarb surgiu, para facilitar a entrada no mercado e a comercialização da tecnologia IT-CMS.
Para Paula Dias, cofundadora da HyCarb e investigadora do LEPABE, este percurso representa “a demonstração de que a investigação de fronteira pode gerar soluções com impacto real na transição energética”. A investigadora sublinha que o desenvolvimento da tecnologia IT‑CMS “permitiu alcançar níveis de eficiência e estabilidade catalítica que abrem caminho à produção de hidrogénio descarbonizado em larga escala, ao mesmo tempo que se obtém carbono grafítico de elevado valor industrial”. Para a cofundadora, a criação da HyCarb “é o passo natural para garantir que esta inovação chega ao mercado e contribui para acelerar a descarbonização global”.
A atribuição da chancela spin‑off da FEUP reforça a ligação institucional entre a empresa e a maior unidade orgânica da Universidade do Porto. A HyCarb integra um grupo restrito de empresas que resultam directamente de investigação desenvolvida na Faculdade, beneficiando de um ecossistema de inovação que inclui acesso a infraestruturas laboratoriais avançadas, colaboração em projetos científicos e integração contínua de talento formado na instituição.
A relação com a Faculdade de Engenharia é “quase umbilical, desde logo por dois dos três sócios fundadores da empresa serem daqui, e toda a equipa atual da empresa ser composta por alumni da FEUP”, refletindo uma relação que, nas palavras de Paula Dias, “é essencial para garantir continuidade científica, atrair novos investigadores e transformar conhecimento em valor económico e ambiental”.
Com uma equipa altamente qualificada e focada na construção da primeira unidade‑piloto para validação industrial da tecnologia, a HyCarb posiciona‑se como um agente determinante na transicção energética. A combinação entre ciência de fronteira, engenharia aplicada e visão estratégica coloca a empresa numa trajetória de impacto global, contribuindo para um futuro energético mais limpo, competitivo e tecnologicamente avançado.













