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Do Estreito de Ormuz ao Algarve: Os riscos que pairam sobre o turismo português

 

Do Estreito de Ormuz ao Algarve: Os riscos que pairam sobre o turismo português

17 de junho de 2026

Portugal está entre as economias europeias mais vulneráveis a uma eventual perturbação da época turística de Verão, num cenário de constrangimentos no abastecimento de combustível para a aviação. O alerta é lançado pela KPMG no relatório European Economic Outlook, que analisa os efeitos económicos da instabilidade geopolítica no Estreito de Ormuz e antecipa um novo choque energético com potenciais repercussões na inflação, no consumo, nas cadeias de abastecimento e nos setores mais dependentes da mobilidade internacional, como o turismo.

Embora a consultora considere improvável uma recessão generalizada na Europa, avisa que uma crise prolongada poderá intensificar as pressões inflacionistas e afectar particularmente países cuja economia assenta fortemente no turismo internacional, como Portugal.

Ainda assim, as perspectivas económicas para o país permanecem relativamente favoráveis. A KPMG prevê que a economia portuguesa cresça 2,0% em 2026, acima dos 0,9% estimados para a Zona Euro. Em 2027, Portugal deverá manter um ritmo de crescimento superior à média europeia, com uma expansão prevista de 1,7%, face aos 1,2% da região.

Contudo, esta trajectória positiva poderá ser colocada em causa caso se verifiquem perturbações significativas no transporte aéreo. Segundo o relatório, uma redução da oferta de voos, o aumento dos custos das viagens ou uma mudança nos hábitos dos turistas, privilegiando destinos mais próximos, poderão afectar directamente as receitas provenientes das exportações de serviços e retirar dinamismo a um dos principais motores da economia portuguesa.

"O turismo tem sido um dos pilares da resiliência económica portuguesa nos últimos anos e continua a ser uma vantagem competitiva relevante para o país. No entanto, essa força também cria uma exposição acrescida a choques externos que afetem a mobilidade internacional, os custos da energia ou a confiança dos consumidores", afirma Miguel Afonso, Partner e Head of Clients & Markets da KPMG Portugal.

Segundo o responsável, a eventual pressão sobre o combustível de aviação deve ser acompanhada de perto, não apenas pelo impacto directo na actividade turística, mas também pelos efeitos indiretos que poderá gerar no emprego, no consumo, nas receitas externas e na confiança empresarial.

Novo choque energético poderá atingir várias matérias-primas

A KPMG destaca que a actual conjuntura difere da crise energética de 2022, marcada pela forte dependência europeia do gás russo. Desta vez, a perturbação assume uma dimensão mais global, podendo afectar um conjunto mais alargado de matérias-primas estratégicas.

Apesar de a Europa apresentar uma menor dependência direta do gás associado ao Estreito de Ormuz, o impacto nos preços internacionais da energia poderá ser significativo e reflectir-se em diversos sectores da economia.

Entre os produtos potencialmente afectados encontram-se o petróleo, o gás natural liquefeito, o alumínio, o hélio, o amoníaco e os fertilizantes. Muitos destes recursos são considerados essenciais para a indústria europeia e apresentam reduzidas alternativas de substituição no curto prazo.

A pressão sobre o alumínio poderá, por exemplo, aumentar os custos da indústria automóvel, enquanto eventuais restrições no fornecimento de hélio — fundamental para a produção de semicondutores — poderão gerar novos constrangimentos nos centros industriais mais avançados da Europa.

Inflação deverá acelerar em 2026

A consultora antecipa também uma nova aceleração da inflação na Zona Euro, que deverá atingir uma média de 3,1% em 2026, impulsionada sobretudo pelo aumento dos custos energéticos.

A subida dos preços da energia e dos transportes poderá repercutir-se em diversos bens e serviços, penalizando o rendimento disponível das famílias e condicionando o consumo privado.

Apesar disso, a KPMG considera que o consumo continuará a ser o principal motor do crescimento económico europeu, sustentado pela resiliência do mercado de trabalho. Ainda assim, a deterioração da confiança dos consumidores e a perda de poder de compra poderão levar ao adiamento de despesas de maior valor e à redução do consumo discricionário.

A resposta dos bancos centrais dependerá da duração da crise. Caso a instabilidade no Estreito de Ormuz seja resolvida rapidamente, os efeitos sobre a inflação poderão ser limitados. Num cenário mais prolongado, as pressões inflacionistas poderão justificar uma política monetária mais restritiva, agravando as condições de financiamento para famílias e empresas.

Menor margem de manobra para os governos europeus

O relatório sublinha ainda que os governos europeus dispõem atualmente de menos margem orçamental do que em crises anteriores. Ao contrário do que aconteceu em 2022, as medidas de apoio tendem a ser mais limitadas, temporárias e direccionadas, refletindo uma maior preocupação com a sustentabilidade das contas públicas.

Para Miguel Afonso, a mensagem para Portugal é clara: apesar dos fundamentos económicos positivos, a economia nacional permanece exposta a riscos externos relevantes.

"Num país onde o turismo, os serviços e a confiança internacional têm um peso determinante, a capacidade de antecipar cenários, reforçar a resiliência das empresas e diversificar fontes de crescimento será decisiva. Este é um momento em que empresas e decisores devem olhar para a gestão de risco, para a eficiência operacional e para a robustez das cadeias de abastecimento como prioridades estratégicas", conclui.

De acordo com o European Economic Outlook, a Zona Euro deverá desacelerar de um crescimento de 1,4% em 2025 para 0,9% em 2026, recuperando parcialmente para 1,2% em 2027. O desemprego deverá manter-se relativamente estável, em torno dos 6,3%.

A KPMG ressalva, contudo, que as projecções reflectem o contexto económico e geopolítico existente à data da elaboração do relatório. O recente anúncio de um acordo entre os Estados Unidos e o Irão, que prevê a reabertura do Estreito de Ormuz, poderá mitigar alguns dos riscos identificados, embora a sua concretização dependa da evolução da situação geopolítica na região.