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Opinião
João Sousa, CEO JPS Group

João Sousa, CEO JPS Group

Como a escassez de trabalhadores afeta a construção e a habitação

19 de outubro de 2026

O problema da escassez de trabalhadores qualificados no setor da construção é hoje um dos principais constrangimentos à sua atividade. A AICCOPN estima que o setor precisa de mais de 80.000 trabalhadores em Portugal, sobretudo em áreas técnicas como estruturas metálicas, instalações elétricas e acabamentos especializados.

Segundo o INE, a remuneração média portuguesa aumentou 14% entre 2022 e 2025, mas apesar do aumento, o setor não consegue atrair talento jovem. A construção tem hoje uma força de trabalho envelhecida, com idade média a passar dos 48 anos e apenas 6,2% dos novos contratados em 2025 têm menos de 30 anos.

A escassez estrutural de trabalhadores afeta gravemente as três grandes vertentes do setor da construção em Portugal: as obras públicas, a habitação (promoção imobiliária privada) e a reabilitação urbana.

A falta de mão de obra tornou-se o principal motor da inflação no setor imobiliário residencial. Como 86% das empresas de obras privadas enfrentam falta de pessoal, a pressão afeta os custos, os prazos e reduz o ritmo de colocação de novas casas no mercado.

Segundo o INE, o custo de mão de obra na construção aumentou 7,3% em julho de 2026 (após ter crescido 8,4% em junho), acumulando uma subida superior a 28% desde 2021. Enquanto os materiais registaram uma variação homóloga de 6,3%, mantendo-se relativamente estabilizados face aos meses anteriores.

Para efeitos fiscais (como o IMI), o Estado fixou o valor base em 570 €/m². No entanto, o custo real de construção de mercado de uma moradia de gama média situa-se atualmente entre 1.400 € e 1.800 €/m², podendo superar os 2.500 €/m² em projetos premium ou em localizações de forte pressão, como a Grande Lisboa.

A falta de equipas subcontratadas (por exemplo: picheleiros, eletricistas e trolhas) estende os prazos de entrega das obras em 6 a 12 meses. Em casos extremos, os promotores imobiliários enfrentam a falência de subempreiteiros a meio dos projetos, paralisando os estaleiros. Tal cria atrasos significativos e custos adicionais para os promotores imobiliários.

Perante a incapacidade de atrair jovens portugueses para o setor, as construtoras passaram a depender quase a 100% da contratação externa. Contudo, o enquadramento legal mudou o paradigma.

A revogação das Manifestações de Interesse pelo governo travou a contratação de milhares de trabalhadores estrangeiros que já se encontravam em Portugal com estatuto irregular ou sem contrato formal, mas em processo de finalização de legalização aquando da admissão. Isto reduziu drasticamente a entrada de novos operários para os estaleiros.

O processo de recrutamento exige agora que as empresas contratem diretamente nos países de origem (com forte incidência no Brasil, PALOP, Marrocos, Índia, Nepal e Bangladeche), através de vistos de trabalho previamente emitidos pelos consulados. Este novo enquadramento tornou a contratação lenta, burocrática e menos previsível para as empresas. Perante este cenário, associações como a AICCOPN pressionam o Governo a acelerar acordos de mobilidade (como o da CPLP e protocolos específicos com Marrocos) e a criar contingentes e “vias verdes” que permitam a entrada regulada e célere de equipas de trabalhadores estrangeiros. O objetivo é estabelecer verdadeiros corredores rápidos que respondam à urgência de mão de obra no setor.

O maior paradoxo é o círculo vicioso que o mercado imobiliário e a construção enfrentam na Área Metropolitana de Lisboa (AML): a região que mais precisa de construir habitação para aumentar a oferta e baixar os preços é, precisamente, aquela onde os trabalhadores da construção menos conseguem viver devido aos preços proibitivos das rendas.

Este fenómeno gera um bloqueio estrutural na capital, assente em três dinâmicas que se reforçam mutuamente. A falta de casas disponíveis empurra as rendas para valores incomportáveis para a classe média e baixa, criando uma espiral inflacionária difícil de travar. As rendas exageradas afastam ou impedem a fixação de pedreiros, trolhas, eletricistas e carpinteiros vindos do Norte, Centro ou Alentejo, que não conseguem suportar o custo de vida na Área Metropolitana de Lisboa. Sem alojamento acessível, estas equipas não permanecem na região ou recusam-se a executar obras na capital. A falta de operários em Lisboa atrasa as obras, encarece os salários das poucas equipas disponíveis e reduz o número de novas casas a entrar no mercado. O estrangulamento da oferta volta a pressionar os preços, em alta, alimentando o ciclo que impede a cidade de resolver o seu próprio problema habitacional.

Atualmente, a construção vive num ponto crítico: envelhecimento acelerado da força de trabalho, incapacidade de atrair jovens, falta estrutural de operários e um mercado habitacional que não consegue atrair quem deveria estar a construir casas. Este bloqueio afeta as obras públicas, a promoção imobiliária privada e a reabilitação urbana, travando a resposta à crise da habitação precisamente quando Portugal mais precisa de construir.

É preciso olhar de forma aprofundada e prática para estas questões e encontrar soluções rápidas e facilitadoras de forma a aumentar a oferta de mão-de-obra, sob pena de maiores atrasos e maiores custos para o setor e para os clientes finais.

João Sousa

CEO da JPS GROUP