


Concursos arrasam com ateliers de arquitectura
Todos os arquitectos sabem que têm de fazer projectos para se candidatarem aos concursos, porque só assim conseguem trabalho, projecção e reconhecimento. É desta forma que muitos começam a trabalhar. Mas também não é novidade que são cada vez mais os ateliers que vão deixando de concorrer, alguns são mesmo obrigados a ficarem de fora. Porquê razão está isso a acontecer?
A resposta é muito simples, o custo associado a um concurso é demasiado grande para um projecto que na maioria das vezes não é ganho e portanto, sem retorno financeiro. E nos dias que correm, não têm capacidade financeira, nem estrutura para o fazer, já que um concurso pode arrasar qualquer atelier.
O Diário Imobiliário falou com alguns arquitectos que explicaram a importância do concurso mas as dificuldades que encontram neste momento para concorrer. Nuno Mateus, do atelier ARX Portugal, revela que o concurso é naturalmente uma das formas de chegar à encomenda, por vezes de edifícios muito interessantes, na sua dimensão, carácter patrimonial, tipo de programa e por isso sempre fizeram muitos concursos. “Talvez tenhamos feito entre quatro a seis por ano em média, ao longo destes 22 anos de vida da ARX, tanto em Portugal como fora do país. O concurso é muito interessante porque coloca as nossas ideias e capacidades em confronto com as de outros colegas, e por isso, de alguma forma nos aferimos profissionalmente através deles”, explica o arquitecto.
Arranjar ânimo e dinheiro para voltar a entrar
Nuno Mateus salienta mesmo que é impossível fazer uma estatística fiável de sucesso em concursos. Por vezes ganham dois de seguida. “A maior parte das vezes não se ganha mesmo e temos que voltar a arranjar ânimo e dinheiro para voltar a entrar”, admite. O arquitecto reconhece que cada vez são pedidas mais coisas nos concursos. “Não há a noção dos encargos reais que esses pedidos acarretam, nem mesmo nos concursos mediados pela Ordem dos Arquitectos. Pedem aos projectistas Estudos Prévios que deveriam custar mais de um terço dos honorários de projecto”, salienta.
1000 horas de trabalho para um concurso
O trabalho de concursos é na esmagadora maioria feita pela equipa de arquitectura, que tem que compreender o problema na sua globalidade, desenhar todo o edifício e desenvolver a forma geral de comunicação, entre plantas, cortes, alçados, diagramas e desenhos 3D que consomem um número colossal de horas. “Na ARX os últimos concursos tiveram um consumo de cerca de 1000 horas de arquitectura cada. No concurso do Parque Mayer, por exemplo, que ficámos em segundo lugar, gastámos 1700 horas”, explica.
20 a 30 mil euros por concurso
Segundo o arquitecto, neste momento o atelier ARX gasta entre 20 e 30 mil euros em cada concurso. “Trata-se de uma prática que arrasa com os ateliers. Num concurso como o da Biblioteca de Grândola, por exemplo, que teve mais de 100 participantes, o investimento total dos vários gabinetes de arquitectura concorrentes deve rondar os 3 milhões de euros, quando a encomenda é de pouco mais de duzentos mil euros. A obra seria de milhão e meio, ou seja, metade do que gastaram os arquitectos”, revela.
Encomenda democrática é uma fonte de empobrecimento generalizado
Nuno Mateus admite mesmo que o ideal da encomenda democrática e igual para todos, torna-se por esta via na maior fonte de empobrecimento generalizado de uma classe já cheia de fragilidades. “Claramente parece-me que temos que passar para outros patamares de democracia, um pouco mais sofisticada e sustentável, - nenhum país que administre bem a sua riqueza a esbanja desta maneira, só nós -, onde a encomenda possa ser distribuída por patamares de mérito diversos, desde a encomenda directa ao concurso aberto, passando por concursos limitados por convite da mais diversa natureza”, adianta.
Por estas razões o ARX Portugal (http://www.arx.pt), neste momento, evita fazer concursos em Portugal e canaliza esse investimento para a procura de oportunidades fora do país.
Sem garantia de implementação dos projectos
Também o arquitecto Pedro Melo, atelier TERNULLOMELO ARCHITECTS considera que os concursos são sem dúvida processos muito dispendiosos. Implicam muitas horas do atelier “em média diria que trabalhamos aproximadamente um mês com duas a três pessoas quase em full-time para pequenos concursos, dependendo da escala e natureza do mesmo a colaboração de uma grande equipa com engenheiros e outros consultores, e outros custos que vão desde as plotagens, maquetes, aos renders/fotomontagens, expedição”, salienta o arquitecto. De tudo isto, Pedro Melo se queixa, sem remuneração assegurada e, na grande maioria das vezes, sem garantia de implementação dos projectos. Nos últimos sete anos o atelier TERNULLOMELO ARCHITECTS foi premiado em sete ocasiões (quatro 1º prémios, dois 3º prémios e uma menção honrosa), sem que com isso tenham tido ocasião de ver as propostas realizadas.
Quanto a custos, Pedro Melo revela que é difícil adiantar valores, mas mesmo assim adianta que costumam contabilizar um valor entre os dois mil e os três mil euros para o atelier. É necessário ainda considerar os custos dos consultores, que, normalmente partilham o risco, o que os leva a excluir concursos com prémios inferiores a 10.000 euros. “Em estruturas maiores ou concursos de maior complexidade estes valores crescem exponencialmente, podendo atingir valores superiores aos 10.000 euros”, admite.
Como existem poucos projectos aumenta o número candidaturas
Contudo, o arquitecto continua a acreditar na importância destes processos e por isso mesmo continuam a investir em dois a três concursos por ano, sobretudo em Itália. Em Portugal nos últimos anos têm-se realizado muito poucos, forçando todos os ateliers a concorrer aos mesmos, “veja-se os recordes de participação nos concursos para as bibliotecas de Grândola e de Setúbal, aumentando o risco, diminuindo as probabilidades de sucesso, razão pela qual nós tendemos a preferir fazer concursos no estrangeiro”, adianta.
Apesar disso, Pedro Melo é de opinião que devem continuar a participar porque acreditam, que existindo um bom júri, condição nem sempre respeitada, esta é a melhor fórmula para garantir a realização de melhores projectos e uma escolha mais informada sobre o que se constrói, evitando que sejam sempre os mesmos a fazer tudo.
“Por outro lado, são sempre processos de crescimento do atelier: permitem-nos aceder a programas que doutra forma não estariam ao nosso alcance, experimentar outras estratégias. Normalmente sente-se uma mudança, se quisermos, um "salto" na nossa produção após cada concurso em que participamos. Talvez seja isso que mais nos atrai”, conclui.
Em Portugal exige-se muito
Também o arquitecto Gonçalo Byrne revela que actualmente está cada vez mais a diminuir a sua participação nos concursos. Também os enormes custos que acarretam são motivo suficiente para reduzir a sua participação. Reconhece que só fez um o ano passado e porque foi feito um convite para apenas cinco ateliers, que foi para a expansão e remodelação da sede da PT na Avenida Fontes Pereira de melo, em Lisboa e que agora disputa apenas com o colega Carrilho da Graça.
“Sempre fiz muitos concursos quando tinha capacidades para isso e agora não tenho. Em Portugal exige-se muito e isso quase sempre se torna incomportável para um atelier. E com a agravante de que agora como existe menos trabalho, o número de propostas aumentam”, revela.
Gonçalo Byrne denuncia ainda que existe um abuso por parte de clientes que pedem estudos preliminares a vários arquitectos ao mesmo tempo e no final nem resposta dão sobre o projecto e isso está a agravar mais a situação dos ateliers.














