
Billy Nash, Passport Properties
Billy Nash: "Portugal conquista pela autenticidade"
O apresentador de Passport Properties, a nova série documental do Casa e Cozinha, cruza o imobiliário de luxo com a história, a gastronomia e a cultura dos destinos que visita. Em Portugal, percorreu Lisboa, Cascais e Sintra, onde descobriu propriedades extraordinárias e experiências que lhe revelaram a autenticidade do país.
Depois de 22 anos em Wall Street, Billy Nash decidiu mudar de rumo e dedicar-se ao imobiliário de luxo. Em 2016, iniciou uma nova etapa profissional, assente na relação com as pessoas e na compreensão das suas necessidades. Dessa curiosidade nasceu Passport Properties, uma série documental que vai além das propriedades de exceção para descobrir as histórias, as tradições e as comunidades que dão identidade a cada destino.
Conhecido como o "Anthony Bourdain do mercado imobiliário", Nash conduz os espectadores numa viagem por casas extraordinárias e pelas pessoas que lhes dão vida. A primeira temporada, composta por nove episódios, inclui uma passagem por Portugal, com visitas a Lisboa, Cascais e Sintra, encontros com profissionais ligados à arquitetura e à gastronomia e uma incursão pelo universo do fado. A experiência ficou também marcada por um acontecimento inesperado: um apagão nacional que acabou por revelar outra dimensão da hospitalidade e do espírito de comunidade portugueses.
Em entrevista ao Diário Imobiliário, Billy Nash fala sobre o que distingue os compradores de imóveis de luxo, a importância da cultura nas decisões imobiliárias e os desafios de adquirir uma propriedade num mercado estrangeiro. Revela ainda os planos para a segunda temporada e admite a possibilidade de regressar a Portugal para continuar a descobrir histórias.
O que o levou a criar um conceito que cruza imobiliário, viagens, cultura e estilo de vida?
Na verdade, passei 22 anos em Wall Street antes de me mudar para o imobiliário de luxo, em 2016. Este ano assinalo dez anos nesta atividade, ao mesmo tempo que a The Keyes Company celebra o seu centenário, na Florida. Ambas as carreiras me ensinaram a ouvir as pessoas e a compreender aquilo que é realmente importante para elas. Sou um consultor que privilegia as relações, não as transações.
A ideia de Passport Properties nasceu da minha curiosidade sobre o que existe para lá das paredes de uma casa bonita. Quem a construiu? Qual é a sua história? Quem vive na comunidade? Onde é que as pessoas vão comer? Como seria viver naquele lugar?
Quis usar propriedades extraordinárias como uma janela para descobrir tudo isso. Adoro o imobiliário de luxo, mas tenho tanto interesse em conhecer a pessoa que vive na rua ao lado e tem uma história que nunca encontraríamos numa brochura imobiliária. É aí que o programa ganha vida: na autenticidade de experiências que não são encenadas.
O que pensa da comparação com Anthony Bourdain, sendo descrito como o «Anthony Bourdain do mercado imobiliário»?
É um elogio extraordinário. Anthony Bourdain tinha uma capacidade especial para levar as pessoas a abrirem-se, muitas vezes bastando sentar-se à mesa e partilhar uma refeição. A sua curiosidade e o respeito que demonstrava pelas pessoas sempre me marcaram.
Nunca pretenderia ser como ele, mas foi, sem dúvida, uma inspiração para tantas pessoas em todo o mundo. Quando cheguei a Lisboa, num domingo à noite, vindo de Londres, o meu amigo Marcello Valle, um consultor imobiliário de referência, surpreendeu-me com um jantar no Ramiro, restaurante que Bourdain tornou famoso. Sentar-me à mesma mesa e filmar conteúdos foi uma experiência de grande humildade. Enquanto conversávamos sobre a vida em Portugal, senti a presença simbólica do seu legado.
Espero que os espectadores descubram algo que não estavam à espera de encontrar. Podem começar por querer conhecer uma propriedade extraordinária e acabar a recordar um produtor de vinho, um artesão ou uma conversa à mesa de um restaurante. São essas ligações que ficam connosco.
O que distingue o comprador de imóveis de luxo de hoje?
Pela minha experiência, os compradores querem perceber como será, na prática, a sua vida numa determinada casa. Os acabamentos de qualidade são importantes, mas também o são a privacidade, o conforto, o espaço para receber a família e os amigos e a proximidade das atividades de que gostam.
Pergunto sempre aos meus clientes: como é que esta propriedade o faz sentir?
Para uma pessoa, luxo é poder ir a pé ao seu restaurante preferido. Para outra, é ter terreno e não ter ninguém por perto. É preciso compreender cada indivíduo.
O que mais o surpreendeu em Portugal?
A diversidade que existe num território relativamente pequeno. Passear por Alfama, passar algum tempo em Cascais e explorar Sintra proporcionou-me três experiências muito diferentes.
Mas foram as pessoas que mais me impressionaram. A Patrícia e o Vasco, que me acompanharam por Alfama, a Joana, que me apresentou propriedades em Cascais e Sintra, e as conversas à mesa, à volta da comida, ajudaram-me a conhecer Portugal de uma forma muito mais pessoal.
Na minha perspetiva, esse é também um dos fatores de atração para os compradores internacionais. Podem começar por visitar o país porque viram uma propriedade bonita e, de repente, dão por si a imaginar uma vida inteira aqui.
O que torna Portugal competitivo e quais são os seus desafios?
Portugal reúne uma combinação que considero muito interessante: a costa, a arquitetura, a gastronomia, a história e a hospitalidade das pessoas. Há muito para descobrir e isso é importante quando alguém está a escolher onde quer passar o seu tempo. O regime de visto gold e o facto de ser um país acolhedor são também fatores a considerar.
O desafio está em encontrar a propriedade certa para cada comprador. Uma casa histórica pode ser extraordinária, mas é necessário conhecer o seu estado de conservação, perceber as obras de que precisa e avaliar o que é realisticamente possível fazer com ela.
Aconselho sempre os compradores a passarem tempo no bairro e a conhecerem a zona antes de tomarem uma decisão. Depois, acompanho-os ao longo do processo, trabalhando com os meus especialistas locais de confiança. É esse o segredo. Gostar de um destino é o princípio; compreender o processo de aquisição exige muito mais trabalho.
Que influência têm a história, a arquitetura, a gastronomia e a cultura nas decisões de compra?
Podem ter um peso enorme. É possível mudar uma cozinha ou mobilar uma divisão. Mas não se consegue recriar a história de uma moradia ou a comunidade que existe à volta de uma casa.
Quando apresento uma propriedade, quero que o comprador perceba o que existe para lá da porta de entrada. Pode ir a pé ao mercado? Onde vai jantar? O que o fará regressar ano após ano?
É também por isso que estes elementos são centrais em Passport Properties. Uma casa torna-se muito mais interessante quando conhecemos as pessoas e a vida que a rodeiam.
As prioridades dos investidores e compradores estão a mudar?
Nas conversas que tenho, noto muita atenção à forma como uma propriedade vai ser utilizada. Os compradores querem saber se podem passar períodos prolongados no imóvel, reunir a família ou trabalhar a partir de casa.
As questões financeiras continuam a ser importantes. Passei 22 anos em Wall Street, por isso compreendo a importância de analisar cuidadosamente os números e os riscos. O meu trabalho passa também por disponibilizar a minha rede internacional de contactos através da Forbes Global Properties.
Mas existe igualmente uma decisão pessoal. Um comprador pode estar a pensar no local onde quer que os filhos passem os verões, estudem ou na forma como pretende viver a próxima fase da sua vida. O meu papel é compreender as duas dimensões.
Que experiência da primeira temporada mais o marcou?
O encontro com um artesão berbere que fabrica tapetes, em Marrocos, ficou-me particularmente na memória. Observar o seu trabalho e ouvir a história por detrás do ofício faz-nos olhar para a peça final de uma maneira diferente.
Também me marcou o tempo passado no restaurante da Lucinda, em Alfama, onde fui recebido como se fosse da família, e a oportunidade de ouvir fado. Filmámos propriedades extraordinárias, mas foram momentos como estes que quis captar na série. Paramos, prestamos atenção e aprendemos algo com alguém cuja vida é muito diferente da nossa.
Foi uma das grandes razões que me levaram a criar Passport Properties. Quero que os espectadores conheçam estas pessoas comigo e ouçam as suas histórias. Cada episódio é uma viagem.
O que aprendeu durante as filmagens que não teria aprendido apenas com o seu trabalho no imobiliário?
As filmagens deram-me tempo para fazer perguntas que talvez nunca tivesse oportunidade de colocar durante uma visita a uma propriedade. Pude conversar com um artesão, partilhar uma refeição ou ouvir como um edifício se integra na história de uma família.
Também aprendi a deixar espaço para o inesperado. Por vezes, uma conversa leva-nos a um lugar muito mais interessante do que aquele que tínhamos inicialmente planeado.
Regressei com uma apreciação mais profunda da forma como as pessoas vivem nestes destinos. Isso também me torna um consultor melhor. Tenho mais para partilhar com um cliente do que apenas as características de uma casa.
O que podem os espectadores esperar da segunda temporada?
A primeira temporada transformou uma ideia que tive há três anos numa série televisiva que está agora a chegar a espectadores de diferentes países. Tem sido extraordinário ver as pessoas a identificarem-se com o projeto.
Estamos a desenvolver a segunda temporada e vamos levar estas conversas até Cannes. Sean Buckley, da Buck Productions, vai juntar-se ao projeto como produtor executivo, e estou entusiasmado com a experiência que traz.
O coração da série continuará a ser o mesmo: propriedades extraordinárias que abrem a porta às pessoas, à cultura e às histórias. Quero passar mais tempo com essas pessoas e conhecer melhor as suas vidas.
A Florida faz parte dos nossos planos e tenho muito interesse em filmar nas Américas, desde a América do Norte e a América Central até à Argentina, na América do Sul. E quem sabe? Se Portugal gostar da série no Casa e Cozinha, talvez regresse para filmar mais no país, de que gosto tanto.
Há um mundo inteiro de histórias por descobrir. Sinto que estamos apenas a começar.


















